sábado, 18 de setembro de 2010

Doença do mundo

Uma cervejinha, um gole de café, uma baforada de cigarro. Todo vício é aquele que vai matando aos poucos, deliciando-se. A inveja, o mal-olhado, a avareza, pecados viciantes que matam de uma vez. Sem prazer.

A gula, o álcool, o fumo - tudo que é bom estraga os dentes. A maconha é proibida, o sexo é pecado, a ganância é sucesso. Na transa, os corpos suados, os dentes trincados, é o corpo a corpo. De lado, de frente, molhado, aos berros. Nas transações, os olhos esguios, a cara lavada, a doença da consciência. O pecado está nos olhos dos cegos.

Homossexualidade ainda é doença, não pode ser amor. O aborto não pode, a não-morte do ser ainda não vivo é a morte dos pais novos ainda vivos. O homicídio é aceito, desde que com bom preceito, a morte de quem é, para quem foi. O dom do vida para quem ainda pode realizar é cortado. Cortado com mais uma vida ou sem a própria - a não realização do ser.

São inventados novos poemas para antigos problemas. E antigos poemas usados para novos problemas. Não tão novos assim, reescrito perante a não renovação do ser. E não há vicio mais penetrante que pegar um cigarro e dar uma tragada no nascer do sol.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Foge-se de esquinas

Esquinas. Tento evitá-las. Está certo que isso é impossível, esquinas são a alma da cidade, a alma das metáforas. Metáfora, aquela velha figura de linguagem que usamos pra enfeitar um pouco o nosso viver. Aquele mesmo viver que tantas vezes nos deixa um tanto quanto céticos e descrentes. Tão descrentes que no amor eu já mesma não sei se creio, Deus parece-me uma ilusão humana bem mais provável. E pra eu achar isso, o caso é grave.

Voltando às esquinas, tento evitá-las porque a cada uma que viro vejo teus olhos tão azuis brilhando pra mim. A cada uma que dobro com o intuito de diminuir para guardar no bolso e esquece-las, vejo-te e não consigo deixá-las de lado. É estranho como eu posso apenas te ver. Sinto vontade de pegar, tocar, sentir teu calor. Muitas vezes, sinto minha mão coçar de vontade de estar entrelaçada entre teus dedos. Mas acabo sempre me policiando e tentando fazer o mais certo nessas horas. Será que isso é tão certo assim?

Se eu gosto de você e você gosta de mim, deveríamos estar juntos sem mais questionamentos. Aliás, todos os românticos assumidos devem estar se perguntando, nesse momento, por que isso não acontece. Não sei. Por que nos despedimos? Aceito minha grande parcela de culpa nisso tudo, aliás a culpa é quase toda minha. Os fantasmas são meus, as crises são minhas, os motivos são meus, a ausência é minha. Frequentemente a pergunta do porquê de você estar comigo passa pela minha cabeça. Sabe, nunca me senti merecida de alguém como você.

Onde será que erramos? O que aconteceu conosco? Tenho certeza absoluta que de nós dois não sou só eu quem me pergunto isso. Você responderia que o começo foi errado. E eu diria logo em seguida que tudo que fiz de mais certo na vida foi ter deixado que você me escolhesse. Você e sua sinceridade. Eu e minha mania de retrucar aquelas coisas certas que dizem, mas que me doem e eu não quero acreditar.

Mas até outro dia fingíamos que não havia mais ninguém mundo, mesmo em um lugar lotado de gente. Brincávamos, encenávamos nossas besteiras, nossos joguinhos de crianças bobinhas. Éramos só eu e você, você e eu e o nosso amor. Amor. Essa palavra ainda faz sentido pra você? Não sei mais o que ela significa pra mim. Aliás, se antes eu já andava meio descrente, agora eu perdi todas as minhas esperanças. Não que eu não ache que eu sinta ele por você ou algo parecido, já que nunca dá pra saber se é amor mesmo, amor é algo inventado por nós. É isso é bem confuso mesmo.

Minha vontade agora é esquecer o mundo e correr pra você, pros seus abraços, pros seus beijos. Mas alguma coisa me puxa para trás. São aqueles fantasmas. Sinto-me tão impotentes com eles, como se eles me vigiassem e soubessem tudo que eu ja fiz com você e me obrigassem a deixar você ser feliz com alguém que saiba gostar de você assim como você sabe gostar de mim. Eu amo você, não duvide. Aliás, vejo-te em cada lugar que passo, em cada direção que olhos. Olhos azuis em frente a padaria, cachinhos do lado da locadora, omeletes na minha própria cozinha, um você inteiro virando a esquina e vindo falar comigo. Mas, meu amor, me desculpe, não posso ir contra aqueles que me assombram agora. Este é um dos momentos em que eu, uma sentimental assumida, devo seguir a razão, não tenho como ceder a emoção e deixar que ela, em algum momento próximo, faça isso tudo de novo. Eu não aguentaria; você também não. Saiba: se for de novo, não será mais.

sábado, 11 de setembro de 2010

Pinta

Ela tinha uma pinta. Dizem os homens e, principalmente, as mulheres que ela era bonita. Não sei, deve ser. Aliás, ela pode ser bonita, pode cozinhar bem, pode saber todos os textos do Caio decorado; mas ela tinha uma pinta. Uma pinta bem em cima daqueles seios enfaixados, mas que não chamavam muita a minha atenção.

E aquela pinta me prendeu por muito tempo. Talvez soe até meio doentio dizer que me apaixonei por uma pinta. Mas preciso ser sincera: aquela pinta me fez esquecer, por um bocado de tempo, aqueles olhos verdes. Olhos verdes esses que eu mantinha em mente e atenção, que eu via em toda esquina - que eu pedia cada vez que as dobrava. Mas aí veio a pinta e acabou-se o que era doce. Ou quem sabe começou.

A pinta me instigava. Eu deveria estar prestando atenção em outras coisas, nem que fosse no corpo praticamente semi nu daquela mulher; mas não. Ela, a pinta, era interessante. Ela me chamava. Ela me encarava, me chamava de gueixa e me perguntava: "decifra-me". Eu, tola, de primeira não entendi. Não entendi porque estava num estado de transe. A meia luz me deixava down, juntamente com a música de fundo. E a mulher falava, falava e falava coisas profundas e sinceras que eu ouvia apenas de longe. O ambiente inalava odores de alecrim e hortelã que acabou por se impregnar em minha pele - tudo para eu lembrar dela.

Mas talvez não seja tão pecaminoso e imaginativo assim pensar que eu estava fissurada por uma pinta, a partir do momento que lembramos que sua dona falava de dragões. Dragões esses que me faziam cada vez mais olhar pra pinta e a pinta e a pinta. Lembravam-me a ela, sabe? Talvez por serem tão intensos quanto.

Atenção: a moça não era meu objeto, como era a dona dos olhos, mas sim a pinta. E não era objeto de desejo, era de indagação, de desafio. Ela me desafiava! E eu caía em seus encantos. Afinal, quem era ela? O que ela queria comigo? Sentia que só eu a via de fato. Seriam os outros tão cegos pra ela? Mas talvez eu mesma a tenha procurado em todos os cantos da sala, como forma de esquecer aqueles tais grandes olhos que pairavam em minha mente. No entanto, embora tudo isso, ela me dava uma certa angústia, me transmitia uma dor.

Acho que a moça não reparou muito que eu estava tendo uma certa relação com sua pinta. Mas também pode ser que não se importe, ela é livre, sabe lidar com essas coisas. Quem sabe, exatamente por ter nos decifrado, ela ache normal o meu interesse por uma parte de seu corpo. Mas ainda acho que ela não reparou.

No fim, com as luzes mais fortes, reparei bem nela. A tal pinta não era uma pinta, mas sim um machucado. Machucados viram pintas eternas para que lembremos o quanto eles doeram, ou quem sabe ainda doem. E talvez por isso ele tenha me encarado tanto assim. Talvez, a moça tenha se machucado de alguma forma e ele tenha tentado me alertar contra ele próprio. Talvez ele me conheça e saiba o que eu estou prestes a fazer, e me mostre que ele é a consequência. Talvez, mas só talvez.