terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Meu próprio abandono

Nunca entendi muito bem essa parte de mim entre o que é real e o que vivemos. E isso, meu bem, inclui você. Minhas vontades e platonices para com o mundo, as minhas paixões fajutas de esquina - tudo que depende de um pouco mais de sonho e fantasia é bem mais concreto e interessante. Mas você, não, você é real, amor é real nesse mundo onde ninguém tem certeza de nada. Se ninguém tem, como você queria que eu tivesse?

Eu te larguei primeiro. Larguei porque desde a primeira vez que chorei contigo já planejei e amadureci nosso fim. Eu achava que isso era sinal de maturidade, deixe-me ser tola. Larguei porque minhas atitudes condiziam com afastar-te de mim e gosto quando ajo como penso, dá uma sensação boa de dever cumprido. Larguei porque te maltratava tanto, que fiquei com medo de você me largar primeiro. Mas você nunca faria isso, você é um frouxo. E eu brigava com você, implicava com você, eu quase batia em você, esperando alguma reação, esperando que você me sacudisse e gritasse e me mandasse parar com tudo aquilo, mas, não, você nunca fez nada. Até que eu tive que fazer.

Mas eu fiz e me arrependi. Cadê um alguém certo quando você precisa de carinho, pra quem contar as boas notícias, com quem dividir novos poemas. Eu tentei fazer de tudo pra não voltar atrás na minha decisão: planejei fugir, me perdi de mim, arrumei o quarto. Eu não sentia nada no começo, mas com o tempo eu passei a sentir uma coisa que me tirava do chão e, vou te dizer, essa coisa me consumia. Parecia que me pegava e me levantava e começava a me arranhar lentamente: no inicio não doía, mas a profundidade ia aumentando, o sangue escorrendo e eu começava a espernear. Saudade o nome disso. Uma saudade misturada com uma carência e dúvida de um sobrevivente de um mundo onde já não sabe o que é real.  Queria a liberdade de ter novos sentimentos, cenas e cigarros. Mas acabei, sei lá porque, não tendo.

E resolvi, então, pedir. É, pedir você em namoro. Tudo planejado, texto ensaiado, presente de Natal, eu pensava, não tem como dar erro, ele gosta de mim. Onde está o ridículo para se explicitar na frente dos meus olhos na hora que eu mais preciso? Só o vi quando me percebi na tua casa, arrumada e perfumada com o meu seu perfume preferido e uma cara de tacho ao ouvir um sonoro "não" vindo de você. Eu comecei a chorar e você também, e você me explicando seus motivos, que eu acho que nem ouvi. Para onde foram todas as malditas declarações que você me fez mesmo quando já estávamos separados?! Lembro-me tanto da primeira vez que nos dissemos eu te amo, quanto da cena de eu voltando pra casa acabada de você. Eu estava sem carro e a sua mãe ainda me deixou em casa enquanto eu, de olhos vermelhos, ia vendo as gotas da chuva escorrendo pelo vidro do banco de trás. Por que será que sempre chove quando alguém te abandona? Incrível como tem sempre uma bosta de uma música que se encaixa no que você está vivendo.


Eu cheguei em casa agradecendo a qualquer força maior pelo fato de eu morar sozinha e não ter que representar a mulher forte, feliz e realizada de sempre para evitar cochichos alheios. Tudo que eu consegui fazer foi pegar um urso de pelúcia e olhar fixamente pra ele por sei lá quanto tempo, não sei, acho que dormi depois. Eu acordei e tentei escrever, essa sempre foi minha terapia, mas não saía nada, não sai nada desde a primeira vez que pensei no nosso fim, não consigo mais mentir pra mim mesma, essas palavras tentam me convencer de uma coisa que sei que não sou, não confio mais em mim, não confio mais nem no que escrevo. Eu passei a semana inteira olhando o telefone de cinco em cinco segundos, esperando um sinal de vida seu, e escrevendo, esperando um sinal de vida meu. Comer eu já quase não comia, você sabe que o verão é quente demais pra eu conseguir comer muita coisa, mas foi numa dessas idas a cozinha, que eu larguei o celular no quarto, tão secamente quanto larguei você aquela primeira vez.

E ele começou a tocar. Entre o pânico e a felicidade imensa de pensar ser você, larguei qualquer coisa que estivesse na minha mão e saí correndo. Mas o destino e o ambiente a gente não controla - no meio do caminho havia uma poça, havia uma poça no meio do caminho. Eu escorreguei nos excretos do cachorro e bati com a boca na poltrona e o sangue começou a jorrar tão rápido quanto a minha vergonha. Cadê a maturidade de alguém que enfrentou o relacionamento estável durante um ano? Era óbvio que não era você, nenhum homem liga pra ex uma semana depois, era muito tempo já passado, você devia estar por aí com outras mulheres, em algum motel de beira de estrada. Por essa burrice eu agora parecia uma criancinha chorando e machucada por um motivo imbecil como esse. E, estancando o sangue, fui ver quem foi o infeliz que fez com que eu me machucasse no meu exílio, devia ser minha mãe pra me consolar com meias palavras ensaiadas e fingir que me acredita dizer que esse é o fim do nosso relacionamento.

Era você.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um alguém diferente

Eu sou um curinga num mundo habitado de valetes, damas e reis. Mas esses acho que são os que habitam mandando nesse mundo, o resto se contenta em ser número - ou nem sabe disso. Estranho esse mundo onde as pessoas não sabem o que elas mesmas representam nele, qual seu papel. Eu não sei o meu, mas tenho certeza que não sou daqui. Eu me taco na minha própria solidão sabendo que ela, em algum momento, me fará bem. Convenhamos: esse sonho não é meu.

Sinto-me tão alheia a isso tudo. Busco lugares e pessoas nesse local que realmente façam com que eu me sinta em casa. E admito que poucos tem esse poder. Se alguém me encanta, eu saio do lugar aonde me escondo, procuro o mundo, sinto o pólen das flores me fazendo cosquinha e enxergo tudo verde. Mas basta um tropeço de decepção para que eu queira, ainda mais, fugir. Os sentimentos e sensações desses momentos são uma contradição que eu sempre gostei de viver, mas nunca gostei de sentir. Eu ainda procuro o meu lugar preferido no mundo, mas acho que ele não existe.

A melancolia às vezes sinto que não é só minha. Quantos outros curingas temos no baralho? Um? Pois então, para cada 54 habitante normal desse mundo onde ninguém mais sabe definir a normalidade - ou somos nós que a inventamos? - há dois curingas. Duas pessoas com cara de bobos da côrte, jeito de bobo, mas que deixam muito a desejar nesse cargo. Duas pessoas que não se sentem acomodadas na vida e se perguntam de onde vem, duas pessoas que se permitem se olhar e não pensar que é um gênio apenas por conseguir achar vida em Marte. Deixem Marte em paz! Como atrevem-se todos a perturbar uma vida lá fora com toda sua futilidade e falsa superioridade?

Eu cresci junto com minha própria morte e meu próprio amor. E aprendi, tentando afastar toda essa escória chamada mundo de mim, que para que alguém possa ir embora, é preciso que um pedaço fique. Enquanto todos os outros se preocupavam em apagar relacionamentos de suas mentes, eu ficava com a saudade e a lembrança. Quem seriam todos se não fossem os vestígios do passado deixados? O que seriam das cartas se não fossem as digitais marcando seu passos e usos? O desuso do passado na construção do futuro desse mundo onde todos permanecem adormecidos me espanta. O curinga é um rebelde sem causa, que se rebela com o sistema por não ter pelo que mais se rebelar em sua boa vida de ser apenas diferente?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vidas e álcoois e amores e paixões

Quando alguém nos maltrata, não devemos ser bonzinhos de volta - acabei de ver isso no filme. Mas eu mesma sempre penso que devíamos nos manter de cabeça erguida e nos dar o devido valor, mesmo que xinguem e falem coisas horríveis e erradas. Até isso acontecer comigo. Existem pessoas que incrivelmente não perdem o controle e conseguem até parecer submissa. Eu chegava a fazer o errado conscientemente esperando que alguém me parasse e dissesse: cala boca, sua filha da puta. Mas não adianta. As estrelas continuam brilhando, mesmo que joguemos quilos de fumaça no ar.

Eu tinha o amor do meu lado e eu joguei fora junto com a fumaça do cigarro que saía de meus pulmões. Eu criei uma situação imaginária de mim mesma, vindo de sentimentos alheios a mim tão bem incorporados, que eu achei que fosse verdade, e acabei querendo, simplesmente, ir. Mas querer não significa poder, muito menos conseguir. Tinha algo mais forte, uma incapacidade chamada medo que não me deixava pôr um fim naquela situação. Mas num golpe sorrateiro o inconsciente me fez terminar com aquilo, dando ao outro motivo. Incrível como a melhor forma de fazer o que achamos certo, é fazer o errado para que o outro faça o primeiro.

As palavras saem com sofreguidão e eu vejo a menina de 12 anos fumando na tevê e penso: mas que merda. E logo tenho meu pensamento mudado ao vê-la pulando na piscina de roupa, patins e cigarro: mas que coragem. Eu nunca tive essa coragem aí, de me tacar do jeito que estivesse numa outra dimensão e tentar ir contra o mundo fazendo o errado. Eu fui em busca disso, até. Na minha mente eu tinha a vontade imensa de mudar e fazer mudar o mundo - o meu mundo! -, mas quem disse que eu fui capaz? Imensa ilusão para uma pequena criaturinha como eu.

Eu tenho feito tanta besteira esses dias, eu acho que realmente perdi o rumo de alguma vida que eu tinha. Bebi muito, falei demais, fumei um tanto. Meu raciocínio lógico se esvaiu de minhas veias e só agora tem voltado, a base de porrada. Eu não queria ter me perdido tanto assim em ilusões sem propósito. Nós nunca seremos o que não somos, mesmo que a frase de efeito que vá contra seja "você quer, você consegue". A graça do mundo está na peculiaridade de cada um de nós, nada adiantaria se fôssemos todos iguais. Onde estaria o amor se todos fossem os mesmos?

Não existiria. E daí vem a falsa sensação de liberdade de quem acha que mudou. Falsa e passageira, que agora já está indo embora. O amor, e quem sabe também a comodidade, acaba sempre retornando ao seu lugar, e é incrível como certas vezes sua direção não muda. Ele é bom, em sua maioria, quando não nos faz nos dividir entre ele e paixões de esquina. Mas essas são fugazes, assim como essa madrugada de amigos bêbados, de amores confusos e de pseudo-submissos apaixonados e sorrateiros - aqueles que não fazem nada no começo e sempre conseguem o que quer.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sem título

Quantos encatamentos eu posso aguentar sem me encantar? Quantos olhos eu posso aguentar perder os olhares? Quantos defeitos eu posso aguentar sem achar um charme? Eu não quero ter que aguentar tudo isso, mas não quero aguentar o que viria depois. Eu sou uma covarde mesmo. "Eu não sou boa em nada!" Fujo de poder me alegrar com medo do inerente ao mundo: a dor e a decepção. Mas é tudo tão recente. Isso aqui perto parece tão cômodo quando o passado não foi passado a limpo. Não foi, mas será. Vou parar de inverter a ordem e me jogar no mundo para me curar e deixar o passado guardado. Eu vou. Alguma hora eu vou. Alguma hora eu aprendo. Alguma hora eu vou estar pronta. Alguma hora. Alguma hora..

domingo, 5 de dezembro de 2010

Dia de domingo

O dia amanhece à base de carneirinhos: céu azul com certas nuvens em formato de algodão. O barulho dos pássaros ressoa, são 5:32h da manhã, numa ladeira da Zona Sul após uma noite não-dormida-mal-dormida, em cima de algumas almofadas ao som de estalos. E, quer saber, eu amo noites assim. Não só noites, como o amanhecer assim: sem carros, som dos pássaros, há pouco tempo ouvia-se cigarras. Mas se essa manhã fosse no meio de uma avenida engarrafada, eu adoraria estar ali observando os passantes.

Pergunto-me o que o mundo quer de mim, nessa noite onde tudo que eu fiz foi tentar respirar. Eu e todas as Thaises habitantes desse um metro e cinqüenta e quatro. A vida é uma velha escritora que fica andando de um lado para o outro fumando ansiosamente e pensando na sua literatura, enquanto nós transitamos por essa cena: somos a idéia genial e a guimba do cigarro. E eu não espero – e nem sei se quero – algo diferente da minha vida.

Mas tem vezes que bate a esperança de uma perspectiva diferente. Existe gente que consegue que uma tatuagem clichê e escondida de alguém de 16 anos se torne interessante só pelo simples fato de estar ali e ter um motivo para ela. E, mais que isso: eu consigo deixar certos medos de lado e ganhar um abraço de manhã, numa manhã solitária, quando tudo que eu queria era exatamente isso, e não só ter companhia no momento. Tolos alarmes em falso.

Companhia não tem sido o meu forte no momento, e nem precisa ser, me disseram. Mas também não vou me fazer de super autossuficiente e dizer que não quero ninguém comigo, odeio o amor, não quero carinho. Mas entre quem tá (com mil perdões) cagando e a minha companhia, eu prefiro a mim mesma, obrigada. Tenho às vezes uns surtos hermitões e vou para Botafogo ou Santa Teresa procurar sebos, brechós e pessoas que valham a pena serem olhadas. Admito, tenho certa paixão por Botafogo e Teresa. E tem vezes que eu entro em um e eu não sei se ele é muito agradável, ou é o dia, ou sou eu, mas eu perco todo meu tempo naquele lugar, e, não, não me resgatem de mim nesse momento, deixem-me me conhecer um pouco mais.

Ou então também cato por aí pessoas aleatórias e falo até elas encherem o saco. Hoje, então, conversei com seguranças de rua. E eu acho que eu me senti tão acolhida naquele amor pelo cachorrinho perdido, que eu até quis umas pulguinhas dele. Sabe, olhando pra frente e vendo artigos de Natal, chego a me perguntar se isso só acontece agora nessa época, mas não acredito muito nisso. Aliás, não sei nem o que pensar do Natal. Papai disse pra eu ler sobre isso deixar de ser desgarrada.

Não sei o porquê, mas o que era paz virou ansiedade. Komisch. E junto com ela, veio uma Kombi barulhenta acabar com a minha ilha de silêncio. Porra, por que tem Kombi às 6h da manhã de domingo numa ladeirinha sem importância?! Queria um cigarro agora. Eu andaria de um lado pro outro mexendo meus dedinhos e fumando, antecipando cenas da minha vida já adiantada. Mas a cortina balança no quarto resguardado, e essas esperanças se esvaem. Vou ver se arranjo pelo menos um café, ainda são 06:06h. Mas não recusava uma musiquinha clássica também não.

Bom dia de domingo para vocês também, passarinhos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Distância de nós dois

Texto de 27/01/2010, um pouco velho e empoeirado, reeditado e que deu vontade de postar agora, enquanto o sentimento e a inspiração não vêm. Boa leitura, espero que não sejam alérgicos.

Não quero falar com você, sai, não fale comigo. Estamos tão longe, Miguel. Não quero, porque quando estamos longe, tudo em nós se distancia. Sei que estás na minha frente, mas não é dessa distância que falo, é a distancia de nós dois. É, meu lindo, tens estado estranho. Ah, você sabe, estranho, frio. É como se eu não te sentisse aqui perto de mim, como se não estivesses mais dentro de mim e só me restasse um sopro teu, uma saudade, uma falta, essas coisas assim.. fracas, calmas. Amor não é calmo.

Ah, Mi, não sei. Pode ser coisa minha também. Há um tempo você reclamou que eu estava assim, lembra? Então, pode ter mudado, não sei. Mas sei que nossa situação não nos favorece: estamos nervosos, tensos. Isso pesa na nossa relação. É, eu sei que isso é um problema nosso e que temos que ficar juntos e enfrentar, já que é nossa culpa, mas sinto-te longe.

É verdade, pode até ser que você tenha tentado se aproximar. Acho que, com toda essa situação, eu fiquei longe. De novo. Ou ainda esteja, mas talvez queira fugir dessa culpa, eu sempre quero fugir da culpa, você sabe.Eu me tranquei dentro de mim pra sofrer sozinha e não te abalar. Sei que estás comigo. Sim, te amo também! Acho que por isso me fechei..

É, tens razão de novo. Tem vezes que eu esqueço toda essa bobagem e me perco em você. Gosto disso. É, sei que gostas também. Nos gostamos, por isso. Perto de você e com isso tudo longe eu sou outra. Me sinto segura, acolhida, amada. Sinto meu coração aos pulos com um simples toque. Acho que não me sinto assim em nenhum outro lugar.

É mesmo, Mi, isso deve ser amor. Quer um sanduíche, meu amor?


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nota para recordação

Juro que tentei expor meus sentimentos aqui de alguma forma. Mas tem coisas que as palavras não sabem expressar, que me desculpem os leitores, escritores, poetas e a outra Thais que acredita nisso. E acho que não é de amor que eu estou falando: disso eu falo até demais.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

This ever-changing world makes you give in.. and cry

Minha escrita não sai mais tão facilmente como antigamente. Tenho forçado-me a sentar numa cadeira e ficar horas olhando para as teclinhas do teclado esperando que algo venha a minha cabeça. Meus sentimentos estão cheios de um vazio estranho. Cabeça vazia é vasta de campos cultiváveis, e cheia é sem sentido; nunca sei qual preferir. Silêncio mesmo pra mim é um papel em branco. Não rabiscar nada significa o real não dizer da minha mente, já que, mesmo calada em voz, estou a falar em pensamento.

Não é nada confortável pensar que dentro de você há varias colunas esperando para serem preenchidas com o ditado do professor destino. Ele gosta de brincar de Deus e decidir o que acontece comigo - por que me colocou nessa situação? Sinto em mim a impotência do mundo. Não exatamente do mundo, mas a de todos nós no mundo. Por isso leio. É um dos únicos modos de eu verificar que tenho poder sobre minha vida, sobre as letras, linhas e parágrafos que leio. Mas nem isso chega a ser livre arbítrio meu, se eu estou lendo, alguém escreveu. Nada é uma decisão só minha. O mundo é feito de poucas pessoas que prestam entrelaçadas na dor de si mesma e daqueles que não prestam - os que dominam o mundo.

Por isso escrevo, também. E não tenho me importado se está confuso ou não. O mundo é feito de surdos por opção, que também sabem ser analfabetos quando querem. Então, escrevo aos que querem. É minha forma de tentar gritar a todos os pulmões sem precisar utilizar minhas cordas vocais, pontos de exclamação ou letras maiúsculas - um protesto sincero e bem escrito é capaz de ser mais ouvido do que trezentos decibéis. Dizem também que jogar pensamentos e sensações no papel são uma terapia para nossos sentimentos. Eu só ainda não sei se isso os estimula ou os diminui. Uma vez, li que só esquece-se uma mulher de verdade quando a transformamos em literatura. Pen, palpite errado. Minha paixão ficou ainda mais platônica e intensa quando eu resolvi jogá-la nas palavras. Mas, de tanto escrever, acabei esquecendo.

E por isso hoje me encontro desse jeito. Cheio de um enorme chumaço de vazio branco e denso, que até tem nome: solidão. Antes, quanto mais eu escrevia, mais cheia de palavras ficava. Elas brotavam de mim e iam criando forma, cor, nome.. independência! Elas simplesmente saíam de mim sem pedir permissão, sem que eu pensasse, sem que eu as sentisse. Mas eu as sentia! Elas eram reflexos da confusão e multidão de sentimentos que andavam pelo meu coração e minha mente montados em cavalos de adrenalina. E agora me pergunto: que sentimentos? No baque certeiro de algum movimento do universo, eu perdi tudo aquilo que me preenchia por dentro. Perdi o tesão por aquelas minhas coisas certas, perdi o encantamento de certos olhos, uma hora verdes, outrora azuis. Perdi as palavras.

Encantamento é tudo. Não há palavras que saiam sem o mínimo de idolatria, nem amor sem o mínimo de adoração às qualidades. Chego até a ficar com o pé meio atrás ao conhecer pessoas novas que me entendam e sejam parecidas comigo, já que tenho medo de que eu acabe me encantando e me apaixonando platonicamente de novo. Mas, se o mundo dá voltas e anda num ciclo vicioso sem fim, por que eu não seria assim também? Eu poderia ficar linhas e linhas falando sobre todas as dúvidas e desesperos que me cercam se isso fosse há um tempo atrás, mas eu não tenho mais palavras. O mundo me castrou e eu só retornarei a vida quando me encantar de novo, só retornarei às palavras quando algum sentimento se apossar das minhas entranhas e começar a contorce-las. Quando eu quiser chorar lágrimas que possam ser lidas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Meu nada

O que eu posso fazer agora além de rir um pouco da cara da vida? Nada. Aliás, "nada" tem sido a minha resposta pra quase tudo agora. Tenho andado sem rumo, sem um ponto fixo. O que fazemos quando tudo que queríamos - e estava relativamente a nosso alcance - fazer já foi feito? Ninguém nunca me deu a fórmula certa de como vencer o tédio. Assim como nunca me deram as instruções para amar. E desse não saber vou fazendo confusões e entrelaçando histórias sem pé nem cabeça que, alguma hora, vão me prender e me botar contra mim mesma. Eu só faço merda, cara. Deve ser por isso que acho tanta graça assim dessa tragédia que é a vida. Ou dessa tragédia que eu transformei a vida - ela em si deveria ser uma dádiva. Eu preciso de um foco!! Algo que me faça andar em linha reta, que me tire de órbita por tempo o suficiente para eu me sentir alegre novamente. Não me reconheço mais estando tão perdida assim. Só tenho andado pelas ruas na chuva, em busca de rostos e olhos pelos quais eu possa me apaixonar. Mas o que tem adiantado? Nada.

domingo, 14 de novembro de 2010

Peça de mim mesma

Hoje eu fui ao teatro. Mas, sabe, não me sinto bem. Não, não, não, a peça estava ótima; o texto era maravilhoso; o ambiente, bem cuidado; e as mulheres, tão boas atrizes quanto bonitas. Aliás, descobri que me apaixono por mulheres mais velhas. São aquelas minhas paixões de um quarteirão só, que mudam de esquina em esquina, aquelas que todo mundo já conhece. Ninguém entende como consigo andar cidades e cidades a base de mulheres impossíveis. Mas dizem que faz bem ter uma musa inspiradora. Ou duas. Ou três. Elas ficam na minha cabeça por aproximadamente três segundos, o suficiente pra eu adentra-las e devora-las antes de atravessar a rua. Mas nada impede que depois as encontre de novo e o ritual se repita.

E é essa vida toda de rituais e repetir de formas diferentes os mesmos textos e paixões já decoradas que me fazem, muitas vezes, pensar que estou numa peça de teatro. Olho o mundo com olhos de quem encara, dou um risinho de meia boca e olho em volta. Faria um monólogo meio inquieto, cheio de dúvidas, o que me deixaria com um ar mais instigante ainda. Andaria pelos corredores com cara de medo e repetindo antigos versos que acabei de conhecer. Observaria profundamente cada passante como se fossem meus espectadores e os deixaria sem graça - ou quem sabe me desafiariam ainda mais. "Mundo, quem és tu?!" - perguntaria-me. Mas não obteria respostas no meu monólogo, mesmo que ele não fosse um monólogo.

Isso tudo faz com que minha mãe me chame de estranha. Meu pai, de ET. Minha vó, que é preciso atentar às minhas tendências comportamentais. E eu, que tudo isso é um sinal de que a vida não é teatro: a realidade está longe de ser pré-escrita. E quem dirá por um alguém dirigida e ensaiada! Queria que fosse. Não seria preciso me mostrar todo o roteiro, agradeceria algumas surpresas, mas, quem sabe, assim, eu não me sentiria assim como me sinto hoje.

Sinto-me incompleta. Normalmente eu diria vazia, mas a áurea da peça me preencheu um pouco. Eu até tinha companhia, duas amigas. Mas não gosto delas juntas e eu sobrando. Não por elas acabarem ficando mais juntas e eu um pouco deslocada, mas porque elas me dão uma certa tristeza. Me lembram a relacionamento, dor, sentimento.

Amor perdido dói. Não o amor que se perdeu pelo tempo, mas aquele que deixamos escapar de nossas mãos e nunca mais o recuperamos. A sensação é estranha. Pego meu ingresso para tentar me distrair e vou passando o dedo, suavemente. Sinto uma tristeza, um arrepio, a ponta dos meus dedos são sensíveis como eu. As luzes não são mais a mesmas e, mais uma vez, eu me sinto inundada da melancolia alheia que pertence mais a mim do que aos outros.

Acabo sendo sozinha. Então escrevo. Não tenho a técnica de encenar o que penso, mas sei tenho o dom da palavra. Não tenho pessoas e amigos que realmente me entendam, mas as palavras estão sempre ali para me ouvir, para encarar os meus olhares e não se intimidarem. A incompreensão dada a um alguém que absorve sensações adversas e gosta do silêncio de si mesma é impressionante. Ninguém também entende quando quero fazer do mundo uma peça de teatro, onde eu possa ser a única personagem do meu monólogo e possa passar todo o tempo no silêncio falando sem parar, debatendo comigo mesma somente no encarar de tantos olhos descrentes e uns poucos sorrisos de concordância.  Deve ser maravilhoso sentir que as pessoas compreendem sua dor enquanto elas riem, e não choram de pena, assim como as letras fazem, enquanto sambam nos sentimentos. A dor é essencial e onipresente, na vida, na peça. Em mim, em você. A arte também.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Doadores de amor

-O que tá escrito aqui?
-Amor
-Você sabe o que isso significa?
-Sei..
-Não, amor não tem significado!

Hoje eu vi como meus problemas e reclamações são minúsculos. Tá certo, minha visão de mundo e de vida sempre me disse isso, mas acho que, talvez por comodidade inconsciente, eu esqueça disso e torne os meus problemas o centro de tudo. Pode ser também que seja essa mania minha de viver no meu mundinho: acabo sempre direcionando o meu amor e atenção para ele. Desprezo esse mundo em que vivemos, onde os maiores sempre controlam os menores, onde um só país tem o mundo inteiro em suas mãos, pura e unicamente devido à simples pedaços de papel amontoados. Mas acho que esse meu isolamento é uma forma de fuga e, na verdade verdadeira, quero que todos venham para ele e não que eu vá para fora. Ainda mais porque não simpatizo com nada que essa multidão chamada população sente e vive. Não vou com a cara de relações efêmeras de pessoas superficiais, muito menos de relações e transações de interesse. Se é para haver interesse, que haja interesse no amor e no carisma, não na beleza. Aliás, acho que o mundo perdeu sua noção de beleza. Não digo de estética, mas sim do conceito inicial. Beleza deveria ser associado à pessoa, à inteligência, à personalidade e não somente ao físico! Rosto, cabelo e o resto.. tudo morre, nada fica. Matéria apodrece, pensamentos só se desenvolvem. Nem mesmo os problemas ficam! E quem dirá os meus. Sou só uma reles e insignificante pessoa nesse mundo todinho que deu sorte de nascer numa família que me deu a capacidade de pensar e enxergar o mundo como ele é. É como se eu não vivesse nele, mesmo porque, convenhamos, só quem sofre sabe o que é viver na Terra. E é sofrer mesmo! Injustiças, guerras, fome, ser simples detalhes no meio de uma luta de interesses e cobiça que os mais fortes - porém covardes - criaram. A vida se resume a isso mesmo, ao fim: uma rede de desesperos estridentes, com certos e poucos momentos de felicidades de um tempo que nunca é o mesmo. E como somente observo esse absurdo do meu mundinho à parte, tento não ser mais tão insignificante pro mundo real. Ou pelo menos não me sentir tanto assim. Procuro todo amor e carinho que sempre cultivei dentro de mim e o dôo para quem nunca teve a oportunidade de um digno grama de atenção. Vasculho meus sentimentos e encontro uma forma de demonstrá-lo com minhas atitudes, de uma forma que eu melhore o mundo e não somente sinta pena dele e de seus bonequinhos. E faço tudo isso porque sei que, no espaço que criei para mim mesma, há pessoas que pensam como eu e que fazem aquilo que faço e estou disposta a fazer. Me animo quando encontro alguém que se encaixa no meu mundo, já que vejo que não só eu vejo o mundo desse jeito, que não só eu quer fazer algo em prol de qualquer um. Que não só eu vou ter sempre uma sobra de amor para dar a quem nunca o provou, para que esses possam entrar em contato e produzir o seu próprio.

-Mas foi à primeira vista..

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Xadrez

-Qual sua cor favorita?
-Cor?

-Sei lá, quadriculado
-Quadriculado é cor?
-Sei não.. por que isso?
-Dizem que as cores dizem muito sobre nós, mas eu não sei minha cor favorita. Devo estar sempre mudando..
-Mas não gostas de nenhuma?
-Gosto de teus cabelos enrolados..
-E eu, de teus olhos.. são pequenos
-Os seus também são!
-Mas os seus combinam contigo
-Gosto de tua boca também!
-A tua é mais bonita..
-As pessoas nunca gostam do que elas tem
-Isso não é verdade!
-Não?
-Eu gosto de você..

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Queridos problemas

Lá fora de casa tem pessoas, problemas e é pra lá que eu vou, andar na brisa, na ventania, no vendaval. Aqui tem muita segurança, muito conforto, é tão parado. Sempre gostei daquelas pessoas que conheço já alteradas. Daquelas que exalam problemas e conseguem gritar alto, somente pelo silêncio do olhar. Eles, sim, sabem gritar, exigir, querer. Gosto de quem sabe o que quer de si ou do mundo. São os irritados, instigados e indignados que me encantam. Me apaixono a cada esquina por aqueles que parecem ter um neon na testa escrito "aqui eis um problema". Desvendar problemas ou vir com pessoas cheias de soluções nunca foi uma boa opção pra mim. Procuro sempre fagocitar um problema e englobá-lo com todas as minhas forças, cada uma de suas partes questionadoras e inteligentes. Admiro aqueles que vêm pra mim dizendo que acham bom que a busca pela compreensão seja estimulada, mas no final dizem que não conseguem chegar a conclusão nenhuma. Ou que simplesmente não sabem, puro assim. Acabo sempre desenvolvendo carinho por aqueles que vem do nada com um papo igual ao meu, a mesma filosofia ou quiprocós comuns a serem compartilhados. São sempre os mais parecidos. Lá fora eu posso me machucar. É pra lá que eu vou.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carta de despedida

Eu decidi partir. Não, juro, dessa vez é sério. Sabe, algumas vezes a paciência acaba e as pessoas tem limite. Mais que isso, as pessoas tem vida. E eu preciso ir embora para ter uma vida de volta. Vou embora de mim, fugir do meu eu que ainda quer continuar com essas falsas lembranças de coisas vagas e vãs que já se foram, junto de ti, quando me rejeitaste. Eu preciso de um eu novo, já não quero ser mais quem sou. Porque esse eu que hoje sou não é somente aquele que mantém essas nossas lembranças, mas ele já virou você. E eu nunca quis ser você, eu sempre quis ter você. E não tive.. ele que teve.

Pensando nisso, aliás, minha ida não deveria me doer tanto, sejamos otimistas: já que não te tenho, não posso te perder. Então eu resolvi realmente ir embora, fugir de mim e assim de você. Vou te deixar pra trás de vez, sem nem pensar de novo. Porque, se pensasse, ficaria. Ficaria faria tudo aquilo de novo. Aquelas esquinas que tanto visitei segurando um girassol, aquelas tantas vezes que abri a mão de tudo - daquilo que pra mim era tudo - para ter mais de você. E não tive. . Todos os meus esforços e pores do sol foram em vão, quando penso em tudo que você não permitiu que fôssemos. Ou que você permitiu que não permitissem que fôssemos.

Agora já foi, ou melhor, eu já fui. Fui embora e larguei aqui esse bilhete, junto com esse sentimento e meses desgastados e perdidos pelo seu poder de me ter na palma da sua mão. Preferi fazer desse jeito pra não ter que encarar aquele seu olhar que me pede pra esperar, sempre fui meio covarde. Nunca gostei de encarar essa sua vozinha suave e essa sua carinha sonhadora quando eu tinha algo e triste para dizer e fazer, você sempre ganhava de mim. Isso é injusto, sabia? Eu não posso mais esperar, eu não tenho mais forças nem para permanecer aqui, dessa vez minha preguiça me impede de dormir e sonhar com você, ela me faz querer camas vizinhas, sonhos mais concretos. Você entende? Bem, isso não importa mais, eu já estou indo. Aliás, eu já fui. Ou não, não sei. Só sei que já não me deixo voltar.


OBS: Texto inspirado em algum texto perdido de Olivia Nielebock, com influências de Stephanie Taylor

 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Já dizia Claudão

O mundo é muito louco. São tantas histórias, coincidências, acasos, encontros, signos, que eu quase não preciso de nenhum artifício a mais para me fazer viajar parada. Ou talvez precise, se quiser ir além, mas essa não é a questão de agora. Nunca sabemos nada. Como iríamos imaginar décadas atrás que o amor e o afeto seriam tão desprezados assim como são hoje? Que as pessoas se distanciariam, ficariam supérfulas e tentariam se consertar da forma mais errada possível? Toda relação interpessoal se tornou efêmera. E é cada absurdo que vejo por aí.

Tudo está tão louco que nem as leis da física estão sendo mais respeitadas. Cadê o atrito? As pessoas estão escorregadias. Não se consegue segurar ninguém muito tempo perto de si: se soltamos de mais, ela cai naturalmente; se apertamos muito forte, ela escorrega e pula de nós numa incrível velocidade. Estamos todos melecados do cinismo da nossa frieza com nós mesmos. E toda essa fornicação geral e vã representa ainda mais nossa característica cínica. Tentamos disfarçar a falta de amor usando a falta de respeito; queremos o sentimento e só ganhamos o corpo. Não existe mais um lugar onde o corpo encontre a alma, muito menos aquele onde dois corpos e duas almas se encontrem.

Não vou dizer que antigamente as pessoas se respeitavam mais, porque não era bem isso. No passado, elas respeitavam uma instituição que as faziam ser aparentemente respeitosas, mas o desrespeito sempre inundou nossa perdida espécie. Eu poderia virar aqui agora e falar que ainda há o respeito quando queremos, com quem queremos. Mas não serve pra porra nenhuma. Ou respeita, ou não respeita. A sociedade não é feita de exceções.

Bate uma tristeza quando penso que pessoas que valorizamos tanto se perdem e somem no mundo em algum determinado momento. Não deveria ser assim, deveria? Se for, por que valorizamos as pessoas? Com certeza são amigos que vão nos ajudar e nos ensinar a viver, mas, se eles se vão, por que sofrer tanto por eles se apegando desse jeito? As pessoas deveriam ter um imã e nunca mais se separar. Ainda não aprendemos a colecionar pessoas. Ainda não temos o poder de distribuir tanto amor assim. Tanta atenção. Como somos atrasados!

Aceitar essa nossa condição sempre me dói muito. Pensar que o mundo pensou que ia avançar com a tecnologia e acabou retrocedendo é deprimente, como diria o Claudão. Deprimente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Vida (e texto) arrastada

Acho que você nunca viu no meu sorriso quando leio algum texto meu para você, imaginando como seria um a gente que já quase chegamos a ser. Nem nunca reparou também no meu nervosismo perto de você, minha falta de palavras, por mais que eu seja transparente em segredos contigo. Em todos, menos esse. Nunca deve ter prestado atenção que todos os meus cigarros fumados até o filtro são gastos pela falta de você, tragados porque não tenho você para me ocupar e tirar meu nervosismo. Do álcool até gosto e sempre gostei, mas, se você reparar bem, bebo bem mais quando há chances de você aparecer, porque assim seria mais fácil eu me livrar da maquiagem da sociedade e me tacar em você, ou melhor, pra você.

Vou jogar meus livros fora e não me peça eles para ti, não quero que vejas o quanto penso em ti. Esses livros são tão você, frases suas, caras suas, vozes suas. Sempre os leio imaginando sua vozinha ao fundo, aquela que sempre reclamo. Marco neles quando vejo você, ou seja, eles são quase todos grifados. Mas, se for por isso, vou jogar o meu ipod no lixo também. Ele, meu dvd, minha tv. Vou me isolar do mundo, virar uma hermitã e não ter contato com mais nada, nem com esquinas. Muito menos com esquinas, onde muito te vejo. Mas não sei se tudo isso vale a pena por causa de menos de um metro e meio de altura.

Não entendo porque você faz isso comigo. Me provoca com palavras e fica impassível na expressão, fala num tom normal e faz uma cara que só você sabe fazer. E vive ainda dizendo que quer fugir. Fugir de que? De mim? Isso você já fez e escolheu o seu porto-seguro-capacho. Se segurou nele, na sua dita felicidade, mas no fundo quer fugir e, bêbada, diz que gosta de mim. Você é uma vírgula perdida, um parênteses na minha vida que ainda não conseguimos fechar, alguma coisa desajustada que eu carrego.

Aliás, essa vida me surpreende a cada instante, assim como você. Quando criança, nunca poderia imaginar que eu iria tanto assim contra o mundo, que o meu ideal de felicidade seria o oposto do convencional, como hoje é. Eu brincava de casinha e escritório, sabe. Eu achava que eu ia crescer e ser adulta e mulher, como eu via todas elas sendo. Não que eu estaria aqui e agora implorando o amor de uma mulher. Minha ideia hoje de familia e vida mudou completamente, e você tem sua parcela de culpa. Só não pense que eu não gosto dessa minha condição.

Você entende o que é ter essa culpa pesada na minha vida? Você acha que é só diversão. Eu sou sua saída pra quando o tédio ou pra quando aquele ressentimento e aquela tristeza guardados fazem você se isolar do mundo e ficar triste sem motivo, mesmo tendo seu porto seguro, amor, e felicidade com você. E você pisa em mim, principalmente quando mandam você pisar. Você foge de mim quando lhe pedem. Você é capaz de brigar comigo quando coagida. E eu só sigo as instruções de seu jogo. Isso é tão covarde. E faz com que eu arraste tudo, inclusive isso aqui que lhe escrevo.

Mas você me inspira. Gosto de olhar esses seus olhos verdes, essa sua boca pequena, essa sua carinha de encantada com o mundo, e deixar que todo o meu sentimendo baile em forma de palavras. Quando há palavras. Geralmente só há os seus olhos e o meu sorriso nervoso. Geralmente eu digo que preciso de você e que penso em homícidio - e não suicídio - quando tiram você de mim, mas na verdade eu nem ligo, não muito. Que te quero, não há dúvidas, há a carne. Mas, foi o que disse, você me inspira. E eu gosto de quem me inspira! A nossa situação é de carne e poesia, menina. O que fode é a poesia..

sábado, 16 de outubro de 2010

Náuseas de maritacas

Hoje eu acordei ao som das maritacas. Não que seja algo assim tão agradável quanto acordar ao som de canários ou Mozart, mas é uma experiência, digamos assim, única. O dia brilhava, o sol estava lindo e a temperatura era amena. O álcool presente em minhas veias pela longa noite havia sido substituído por uma tsunami de oxitocina durante a madrugada. E do enjoo veio a satisfação e o sono. Uma bela noite para ser interrompida pelos sons esganiçados das maritacas.

E mesmo com o sexo, mesmo com uma noite de sono, mesmo com o álcool, mesmo com o escuro, mesmo sendo sexta feira livre. Mesmo com todas as coisas boas que eu poderia exigir na minha vida em momentos sãos, eu me sentia triste. Não exatamente triste, mas minhas sinapses fizeram um caminho em direção a uma coisa que me deixa, mais que deprimida, revoltada: você. E faz tempo que isso vem vindo aqui em mim, faz tempo que ando bebendo muito. Mas agora estou sóbria.

É, todos os mineiros já saíram do buraco, menos eu. E sabe por que? Você deve saber. Porque estávamos todos juntos num parque, debaixo das árvores, cercados de bicicletas e patos, comendo amendoim e cantando uma melodia de pé quebrado; e, não, você não estava. Tinha só um menino de blusa quadriculada e buraco na orelha; uma pequena de fala estranha; uma menina que gostava de tirar fotos com sua máquina azul; uma outra que estava de blusa azul mas que só andava de bicicleta; um desconhecido que mandava bem no violão e tirava sarro do de blusa quadriculada; e tinha eu. Mas não tinha você.

Você estava tacada em algum lugar qualquer com as suas desculpas esfarrapadas e as suas blusas quadriculadas. Você deve estar andando em alguma ladeira, parada em cima de algum morro, ou mesmo dentro de alguma caverna no subsolo, seu esconderijo preferido. Mas eu, ah, tudo que eu queria era que as minhas maritacas matinais cantassem no buraco onde você se esconde, assim que elas te sentissem, para que eu possa te achar lá dentro perdida na sua organização, ou para que elas no fechem no recinto de vez. E aí seríamos só eu e você. Você, eu e as maritacas que torceriam a nosso favor por mil anos de amor e poesia. E Los Hermanos, se você quiser.

E assim a nossa história talvez tivesse um nome bem pequeno e diferente assim como a gente, mas casual também. Talvez eu conseguisse agora escrever alguma coisa sem perder o fio da meada lembrando a sua face, como está acontecendo. Mas eu não poderia exigir muita coisa de quem se esconde em buracos e não vê nem a luz do sol, seja de dia ou de noite. Eu só poderia exigir isso aqui e agora, em casa e implorando por um cigarro, implorando para que você virasse um cigarro e saísse de dentro de uma caixinha e viesse parar aqui, nos meus lábios secos da droga que você se tornou. É meu único desejo de uma noite triste e sozinha de mais um dia sem você, pena que você não é pequena o suficiente para caber numa caixa de cigarro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

(in)Decisões

É difícil - e estranho - esse lance de decidir entre o Sol e a lua. De querer um pedaço no céu, e agir como o diabo. De viver o certo, e desejar o incerto. De buscar o novo, sem querer se separar da velho. De gostar do homem, e querer mulher. A vida é cheia dessas coisas, né, escolhas. Procuramos sempre escolher que fila do pedágio pegar, mesmo antes de sair do túnel. Qual estará mais cheia? Qual combinará mais comigo? Onde estão meus amigos? Amigos. Ainda não me decidi se essa categoria de pessoas existe para nos ajudar ou nos atrapalhar. Na maioria das vezes, estou certo da primeira opção, mas tem vezes que eles pertubam tanto minha confusão, que deveriam ir embora. Mas não consigo me desapegar deles. Taí: desapego. Quem sabe o segredo da vida não é deixar tudo para trás e nos tacar sempre no novo? O que fomos às 11:39h não é o que somos às 11:40h. Mas há o medo. De perder a segurança do que sabemos que somos, de perder aquilo que tivemos. Ele me persegue há tanto tempo e me faz crer que o real é impossível, inimaginável e o pior, insosso. Querer saber direcionar seus ideais e a si mesmo, todos querem, mas quem um dia há de conseguir? Sento-me na minha poltrona de vovô, pego mais uma xícara de café e leio o jornal. Espero o que tiver que vir. Por mais que isso seja uma forma de eu me decidir como encarar os fatos.

É, até as mais ínfimas coisas da vida são escolhas.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um dia, um dia, um dia

Um dia, eu esqueço tudo aquilo que aconteceu.
Eu parto pro mundo.
Eu deixo o abraço.
Eu retomo o beijo.

Eu moro lá.
Eu mando a comida vir daqui.
Eu mando meu mundo pro outro canto.
Eu permaneço só desse lado.

Eu moro com desconhecidos.
Eu brigo com família.
Eu trepo com amigos.
Eu digo oi pro cachorro.

Eu aprendo piano.
Eu canto pro mundo.
Eu apresento meu balé de pé quebrado pro mendigo da esquina.
Eu bamboleio a Terra.

Um dia, eu aprendo francês pra cantar Cher Antoine.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Joana

Desiludi.

Não comigo,
mas sim com aquela
busca infindável por ti,
que quanto mais chegar
perto quero,
mais ela me escorre pelos dedos.

Felicidade.

Ah, estúpida felicidade
aquela que me toma.
Não que sejas tu estúpida,
mas tu que me tomas
a felicidade.
Minha e de tantos outros
que buscam protagonizar
tua bela história.

Jogadora.

Acabarás por jogar
este seu jogo sozinha,
longe de todos aqueles que cismas
em fazer de pecinhas de xadrez.
Damas também!
Vagarás sozinha
pelo tabuleiro
de seu jogo predileto.

Sórdida.

Mais que todas as mulheres
que conheço,
que todas as bruxas
que enfeitiçam.
Começaste sozinha este trabalho,
plantaste em mim sementinhas
e quando começou a florescer,
foste embora.

Mulher.

Não negas tuas origens
de movimentos calados
e surpreendentes.
Conheces todos
os poderes
que teus grandes olhos
têm.

Abusada

E abusa de todos aqueles
e aquelas,
que o mesmo poder
que tu tens, têm,
mas esquecem disso
e se perdem em ti.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sonho: eu

Eu queria muito agora dar um trago, virar um copo de cerveja e sair pra fazer o que eu quero. Daí, então, eu daria outro trago, viraria outro copo e faria isso continuamente, o que deixaria tudo mais fácil e natural. Eu poderia ser eu. Não que normalmente eu não seja, mas o mundo e convenções e regras da sociedade muitas vezes me impedem. Por que existe sociedade? - pergunto-me às vezes. As pessoas poderiam ser tão diferentes e individuais se não existisse aquilo que nos faz ser estereotipado, se elas mesmas não tivessem criado isso! Então tento fugir um pouco dessa realidade imposta. É, eu queria ser eu pra caralho.

Sou feita de sonhos, e esse é um deles. Aliás, de que mais somos feitos além de sonhos e átomos? Vencemos a probabilidade de uma equação perfeita entre X e Y, o que nos torna o mais certo par ordenado de nossas vidas. Somos simples conjuntos de reações químicas com a grande e única peculiaridade de, mais do que pensar e raciocinar, sonhar. E quando repito essa palavra (sempre repito: sonho, sonho, sonho) estou falando tanto daqueles que temos à noite enquanto dormimos quanto daqueles que temos de dia, conscientemente.

Esses segundos são aqueles de que sempre dizemos que somos constituídos, o que está errado. Culpemos os costumes e as tradições. Esses são aquelas coisas almejadas por nós, que muitas vezes são resultados de influência do meio em que vivemos, seja como repressão ou como valores e objetos que esse meio nos faz querer ter. São só reflexos de nós mesmos no mundo. O que, claramente, não tira deles sua importância. Se não fossem eles, como poderíamos expor nossas próprias personalidades de modo mais natural e animal, como o de conseguir o que quer? Com eles, somos leões em busca das presas, traçando estratégias, mostrando nossas capacidades e pensamentos. Mas até os leões tem suas ética, leis e sociedade, assim como nós - assim somos nós. Espero que ninguém se sinta ofendido com essa constatação.

Os que temos ainda adormecidos (nós não, os sonhos!) são também reflexos de nós, mas, principalmente do nosso inconsciente. Nós não sabemos, mas essa parte do nosso cérebro guarda informações importantes sobre nós e, principalmente nosso dia a dia. Guardam aquelas informações que não julgamos tão importantes assim para manter em nossa lembrança acessível e as jogam em correntes de pensamentos que temos durante a noite, sorrateiramente, assim como os russos. Frases, informações e até desejos repreendidos que não só pela sociedade o são, como também por nós mesmos, querendo ou não. Por outro lado, eles podem ser também só espelhos de complexos, impasses ou indecisões (problemas) nossos que martelam tanto em nossas cabeças, que acabam caindo em nossos sonhos, tomando conta do inconsciente e consciente.

É incrível como dentro de nós mesmos temos tantas pessoas diferentes. Mas mais incrível ainda é a formar como deixamos e não deixamos esses personagens nossos aflorarem. E o pior de tudo: como dizemos que queremos ser nós mesmos, se dentro de nós temos tantas pessoas diferentes? Nós não enxergamos, nem no inconsciente nem nos momentos acordados, o que realmente somos, somente nossos farelos conhecemos. Perdemo-nos sempre dentro de nós, se não tomarmos cuidado. E afloramos de dentro de nós mesmos, se descuidarmos. Talvez seja por isso que, desde o começo dos tempos, as pessoas tenham feito estratégias de manter suas sanidades mentais, algo que as guiasse. Daí vieram teorias como a religião e o amor: características que seriam onipresentes e que nos fariam seguir por um caminho, dando a nós rédeas. Ou seja, mais uma vez as cordas da sociedade nos seguram de nós mesmos. Desse modo chegamos ao ponto de dizer que a sociedade, por mais que critiquemos e queiramos dela nos livrar de todas as maneiras (consciente e inconscientemente), é o que nos garante a sanidade mental, o direito de sermos nós mesmos: pensantes, sonhadores.

São nossas rédeas, mas ainda tem pessoas que se perdem nessa realidade que nos cerca. Tacam-se nos abismos do amor, da fé, do trabalho como se essas coisas fossem seus únicos sonhos e se perdem. São os sonhos que se misturam com a vida, mas que fazem as pessoas caírem no limbo. E caem nesse limbo por não terem nada que os proteja dessa queda. Mas nada mais os protegeria do que eles mesmos, seus últimos vestígios de sanidade em meio à sucção que essas coisas fizeram em seus cérebros. Eles se salvariam de sua loucura, imposta por eles e pelo mundo, mas deveriam se apoiar novamente no meio e na sociedade, para manterem sua sanidade. Troca do limbo pela loucura, ambas salvadas pelo mundo e suas leis, a segunda tão desejada pelos que lá já estão.

Mas em meio a todo esse imbróglio, sinto-me perdida. Sinto como se todos, inclusive eu, falassem, falassem, falassem, falassem e não dissessem nada. Não achamos solução nem resposta para nada, por mais que falemos o dia inteiro. De uma analise fria, eu diria que a resposta de tudo em nós e no mundo está na química, mas nós não somos frios. Por causa da química e das moléculas aprendemos a pensar e conectar neurônios, o que foi quebrando o nosso gelo. É contraditório, mas é o que somos: contraditórios e isso. Eu só queria fugir, no fim das contas. Um mundo paralelo onde eu organizasse a mim mesma em potinhos e deixasse vir à tona cada uma quando quisermos, apenas fazendo o movimento de levantar a tampa. Um mundo onde fosse tudo assim sem contradição. Um mundo sem graça. É, cada minha vodca nesses momentos?

sábado, 25 de setembro de 2010

Impressão

Acho que minha oscilação de humor, meu estado de espírito e minha paz com o mundo podem ser muito bem vistos com a frequência em que mudo o layout do blog. Mas acho, só acho.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ponto de tangência

Se me contassem aquela cena há um mês atrás, eu chamaria a pessoa de idiota e mandaria ela ficar quieta. É, delicadeza definitivamente não é o meu forte. Aquele sentimento, sim, o era. Forte, mas tão forte que eu não sabia o quão profundo meu pobre coração era, para ele lá poder alcançar. E agora esse cigarro recém aceso me convida a um doce fim.

Por baixo das cobertas e do mundo eu ainda podia sentir o calor dos seus pequenos pés tocando o meu, mas por cima tudo que eu não queria era ainda ter o teu perfume preso em minhas narinas numa tamanha onipresença que chegava a me dar ânsia, quando da crueldade eu lembrava. E mesmo sem leituras profundas, eu pude perceber que estava totalmente entregue ao momento. Não era somente a cerveja, o Los Hermanos, o cigarro adocicado e a poltrona que me faziam me sentir envolvido com tudo: era você. Você, menina, sabia o quanto eu estava preso a você e fingiu não se preocupar com o que viesse a seguir. Mas agora o gosto, a fumaça, o cheiro, o ambiente, você - fiz questão de apagar tudo. O fim lhe acompanhou.

Deixe, menina, deixe que o mundo nos veja. Sempre viram nosso amor, seria injusto com nossos fiés espectadores priva-los de mais um capitulo de nosso romance, que agora nada de romantico tem, mas sim de realista. Sabe, Machado me ensinou tantas coisas na ultima vez que conversei com ele, embora naquela época achasse que seus comentarios se aplicavam a todos os casais do mundo exceto a nós dois. Ele, mais uma vez, estava certo. Não é muito a toa que já me chamaram de Machadinho. Permita que o amanhã nos flagre e resolva o que fazer conosco, porque de mim já não deves esperar atitude nenhuma, largo tudo novamente em tuas mãos. Contudo, dessa vez o faço consciente.

Não sei se devo acreditar que farás disso algo bom, tu, que já deixaste tudo ao léu uma vez, não se incomodarias ao fazê-lo de novo.Não que eu não considere três maior que um, mas já achava o raciocinio um tanto quanto complexo para ter. Não sei se devo mais crer no que dizem e no que fazem, já que tu me decepcionaste. Tu eras o mundo para mim, menina. Sem ti, fico descrente em tudo. Em todos. A insegurança hoje me persegue de mãos dadas com o medo. Antes, não, por mais que você estivesse demasiadamente preocupada com o mundo lá fora, eu só me policiava em adentrar você.

Isso porque sempre achei muito doce essa tua feição. Era o meu prazer transposto em gente. Nunca aconteceu, mas acho que admirei tanto a tua pessoa que tu te transformaste para mim e todo o meu clamar eram por vós espalhadas pelo mundo, para que eu nunca me perdesse daquilo que eu sempre amei. E tu, incrivelmente, não mudaste durante todo o tempo que tivemos para nós dois. Os mesmos olhos penetrantes, a mesma miudeza portadora de uma gigantesca pessoa. Mas, em um dia, em uma tarde, em algumas horas, você se dissipou por completo, menina. Espalhou-se por todos os cantos, perdendo alguns de teus pequenos grandes traços e tratou de cometer o suicidio de quem eu tanto sonhava em minhas horas acordado.

Mas logo depois tu te recompuseste e eu não sei mais como reagir. Não sei como encarar teus olhares cortantes, que, mesmo fragilizados e não querendo assim ser, o são. Eu sangrava a cada vez que era obrigado a cruzar com eles, a cada vez que eu precisava ouvir referencias a ele. Eu sangrava porque sabia, e sei, quem tu és, mas também porque sei que se deixou desfazer por um momento. Será que só eu tenho medo que isso aconteça de novo? Mas sei que continuarei me encontrando em ti enquanto essa pergunta puxar meu pé a noite como um fantasma. Continuarei estando preso aquele ser teoricamente intangível que se deixou levar por revoluções pessoais e se deixou tangenciar. Mas mantenho ainda aquela minha profunda e pequena esperança que aprendi nas aulas de matemática, embora o mundo, a cerveja, o cigarro, o Los Hermanos e a poltrona façam um complô pelo contrário: tangenciar é em um único ponto. Aquele que acabou de passar.

sábado, 18 de setembro de 2010

Doença do mundo

Uma cervejinha, um gole de café, uma baforada de cigarro. Todo vício é aquele que vai matando aos poucos, deliciando-se. A inveja, o mal-olhado, a avareza, pecados viciantes que matam de uma vez. Sem prazer.

A gula, o álcool, o fumo - tudo que é bom estraga os dentes. A maconha é proibida, o sexo é pecado, a ganância é sucesso. Na transa, os corpos suados, os dentes trincados, é o corpo a corpo. De lado, de frente, molhado, aos berros. Nas transações, os olhos esguios, a cara lavada, a doença da consciência. O pecado está nos olhos dos cegos.

Homossexualidade ainda é doença, não pode ser amor. O aborto não pode, a não-morte do ser ainda não vivo é a morte dos pais novos ainda vivos. O homicídio é aceito, desde que com bom preceito, a morte de quem é, para quem foi. O dom do vida para quem ainda pode realizar é cortado. Cortado com mais uma vida ou sem a própria - a não realização do ser.

São inventados novos poemas para antigos problemas. E antigos poemas usados para novos problemas. Não tão novos assim, reescrito perante a não renovação do ser. E não há vicio mais penetrante que pegar um cigarro e dar uma tragada no nascer do sol.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Foge-se de esquinas

Esquinas. Tento evitá-las. Está certo que isso é impossível, esquinas são a alma da cidade, a alma das metáforas. Metáfora, aquela velha figura de linguagem que usamos pra enfeitar um pouco o nosso viver. Aquele mesmo viver que tantas vezes nos deixa um tanto quanto céticos e descrentes. Tão descrentes que no amor eu já mesma não sei se creio, Deus parece-me uma ilusão humana bem mais provável. E pra eu achar isso, o caso é grave.

Voltando às esquinas, tento evitá-las porque a cada uma que viro vejo teus olhos tão azuis brilhando pra mim. A cada uma que dobro com o intuito de diminuir para guardar no bolso e esquece-las, vejo-te e não consigo deixá-las de lado. É estranho como eu posso apenas te ver. Sinto vontade de pegar, tocar, sentir teu calor. Muitas vezes, sinto minha mão coçar de vontade de estar entrelaçada entre teus dedos. Mas acabo sempre me policiando e tentando fazer o mais certo nessas horas. Será que isso é tão certo assim?

Se eu gosto de você e você gosta de mim, deveríamos estar juntos sem mais questionamentos. Aliás, todos os românticos assumidos devem estar se perguntando, nesse momento, por que isso não acontece. Não sei. Por que nos despedimos? Aceito minha grande parcela de culpa nisso tudo, aliás a culpa é quase toda minha. Os fantasmas são meus, as crises são minhas, os motivos são meus, a ausência é minha. Frequentemente a pergunta do porquê de você estar comigo passa pela minha cabeça. Sabe, nunca me senti merecida de alguém como você.

Onde será que erramos? O que aconteceu conosco? Tenho certeza absoluta que de nós dois não sou só eu quem me pergunto isso. Você responderia que o começo foi errado. E eu diria logo em seguida que tudo que fiz de mais certo na vida foi ter deixado que você me escolhesse. Você e sua sinceridade. Eu e minha mania de retrucar aquelas coisas certas que dizem, mas que me doem e eu não quero acreditar.

Mas até outro dia fingíamos que não havia mais ninguém mundo, mesmo em um lugar lotado de gente. Brincávamos, encenávamos nossas besteiras, nossos joguinhos de crianças bobinhas. Éramos só eu e você, você e eu e o nosso amor. Amor. Essa palavra ainda faz sentido pra você? Não sei mais o que ela significa pra mim. Aliás, se antes eu já andava meio descrente, agora eu perdi todas as minhas esperanças. Não que eu não ache que eu sinta ele por você ou algo parecido, já que nunca dá pra saber se é amor mesmo, amor é algo inventado por nós. É isso é bem confuso mesmo.

Minha vontade agora é esquecer o mundo e correr pra você, pros seus abraços, pros seus beijos. Mas alguma coisa me puxa para trás. São aqueles fantasmas. Sinto-me tão impotentes com eles, como se eles me vigiassem e soubessem tudo que eu ja fiz com você e me obrigassem a deixar você ser feliz com alguém que saiba gostar de você assim como você sabe gostar de mim. Eu amo você, não duvide. Aliás, vejo-te em cada lugar que passo, em cada direção que olhos. Olhos azuis em frente a padaria, cachinhos do lado da locadora, omeletes na minha própria cozinha, um você inteiro virando a esquina e vindo falar comigo. Mas, meu amor, me desculpe, não posso ir contra aqueles que me assombram agora. Este é um dos momentos em que eu, uma sentimental assumida, devo seguir a razão, não tenho como ceder a emoção e deixar que ela, em algum momento próximo, faça isso tudo de novo. Eu não aguentaria; você também não. Saiba: se for de novo, não será mais.

sábado, 11 de setembro de 2010

Pinta

Ela tinha uma pinta. Dizem os homens e, principalmente, as mulheres que ela era bonita. Não sei, deve ser. Aliás, ela pode ser bonita, pode cozinhar bem, pode saber todos os textos do Caio decorado; mas ela tinha uma pinta. Uma pinta bem em cima daqueles seios enfaixados, mas que não chamavam muita a minha atenção.

E aquela pinta me prendeu por muito tempo. Talvez soe até meio doentio dizer que me apaixonei por uma pinta. Mas preciso ser sincera: aquela pinta me fez esquecer, por um bocado de tempo, aqueles olhos verdes. Olhos verdes esses que eu mantinha em mente e atenção, que eu via em toda esquina - que eu pedia cada vez que as dobrava. Mas aí veio a pinta e acabou-se o que era doce. Ou quem sabe começou.

A pinta me instigava. Eu deveria estar prestando atenção em outras coisas, nem que fosse no corpo praticamente semi nu daquela mulher; mas não. Ela, a pinta, era interessante. Ela me chamava. Ela me encarava, me chamava de gueixa e me perguntava: "decifra-me". Eu, tola, de primeira não entendi. Não entendi porque estava num estado de transe. A meia luz me deixava down, juntamente com a música de fundo. E a mulher falava, falava e falava coisas profundas e sinceras que eu ouvia apenas de longe. O ambiente inalava odores de alecrim e hortelã que acabou por se impregnar em minha pele - tudo para eu lembrar dela.

Mas talvez não seja tão pecaminoso e imaginativo assim pensar que eu estava fissurada por uma pinta, a partir do momento que lembramos que sua dona falava de dragões. Dragões esses que me faziam cada vez mais olhar pra pinta e a pinta e a pinta. Lembravam-me a ela, sabe? Talvez por serem tão intensos quanto.

Atenção: a moça não era meu objeto, como era a dona dos olhos, mas sim a pinta. E não era objeto de desejo, era de indagação, de desafio. Ela me desafiava! E eu caía em seus encantos. Afinal, quem era ela? O que ela queria comigo? Sentia que só eu a via de fato. Seriam os outros tão cegos pra ela? Mas talvez eu mesma a tenha procurado em todos os cantos da sala, como forma de esquecer aqueles tais grandes olhos que pairavam em minha mente. No entanto, embora tudo isso, ela me dava uma certa angústia, me transmitia uma dor.

Acho que a moça não reparou muito que eu estava tendo uma certa relação com sua pinta. Mas também pode ser que não se importe, ela é livre, sabe lidar com essas coisas. Quem sabe, exatamente por ter nos decifrado, ela ache normal o meu interesse por uma parte de seu corpo. Mas ainda acho que ela não reparou.

No fim, com as luzes mais fortes, reparei bem nela. A tal pinta não era uma pinta, mas sim um machucado. Machucados viram pintas eternas para que lembremos o quanto eles doeram, ou quem sabe ainda doem. E talvez por isso ele tenha me encarado tanto assim. Talvez, a moça tenha se machucado de alguma forma e ele tenha tentado me alertar contra ele próprio. Talvez ele me conheça e saiba o que eu estou prestes a fazer, e me mostre que ele é a consequência. Talvez, mas só talvez.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Doses de vazio de você

Confesso que não ando muito bem das pernas. Pernas, braços, cabeça. As coisas estão saindo do meu controle, eu não consigo conter essas palavras que por aqui teimam em passar. Quem dera que essas que passam por meus dedos saíssem de minha mente! Quem sabe assim estaria um pouco mais sã.

Soaria até clichê dizer aquilo que todos já sabem: solidão mata. Mata os neurônios, sobrecarregando os pobres coitados de excessivas sinapses que sou obrigada a fazer enquanto sozinha fico, já que nada melhor para passar o tempo tenho. Tu não sabes, menina, como dói andar com um alguém ao teu lado e sentir-se só. Desconfio que daquela solidão de andar totalmente desacompanhada - e não só em sua mente - já tenhas passado, mas, saiba: esta é muito pior.

Tenho ao meu lado aquela pessoa que olha pra mim e diz: vá pela direita sempre, porque, se fores pela esquerda, corre risco de perder-te em ti mesmo e não me achar mais. Engraçado como sempre fui pelo meio. Talvez seja por isso que hoje eu me apegue a comodidade, que me faz andar acompanhada, mas queira me libertar e, por que não dizer, seguir-te.

Chega a ser cômico como eu não consigo escrever nada que não seja relacionado a você. Mas eu tenho um grande palpite sobre o porquê: tu me roubas as palavras. E quanto mais espaço em mim elas deixam, mais cheia de você fico, o que me leva a querer gastá-las ainda mais. Você, sua ladra, rouba de minhas entranhas o que há de mais precioso em mim. Isso é tão sujo.

Estou cheia de erros de português, álcool no sangue e cinzas em mim. O que resta de mim além de todos os pensamentos que tenho sobre nós? Esqueci que tu comes conscientemente pedaços de mim que vou largando por ai, enquanto os vendo em troca de carinhos teus. Fazes um ato canabalesco, menina! E esperas o que? Aliás, espero o que? Faço essa pergunta todo dia em frente ao espelho e ele só responde: para amar o abismo é preciso ter asas. É, meu espelho lê Nietzsche.

Mas não é de amor que falo. Tu me prendes a atenção de forma que a paixão só o faz. Tenho me tornado uma inconstante suicida, que de insoluvel e passageira tudo tem. Mas não quero participar desse sistema hipócrita, não vou mudar - essa promessa já não é de hoje. Por você até mudaria, mas mudaria eles, e não a mim. Mudaria até você que se tacou nessa coisa mudana! E que exatamente por isso me deixou assim.

É possivel ainda ouvir o grito daquilo que ainda chama de mim. Somos várias células geladas clamando pelo calor de teu corpo, é melhor chamar-mos pelo sobrenome. Estou cansada de andar nesse meio, no olho do furacão, beirando as margens de teu corpo maravilho que se contrapõe com minha tênue linha de sobriedade.

Que saudades que sinto dessa você que já pude ter, mas nunca realmente tive! Que saudades que sinto da certeza de poder sentir teus cabelos já em meus dedos, embora ainda não o tivesse. Essa saudade me faz querer seguir pela esquerda e deixar de lado toda minha segurança em busca de uma boca que me fizesse calar. Vem, menina, cala minha boca com a tua. Quero fazer amor com as suas palavras, me encher de suas exclamações e prolongar nossas reticências. Quero que tires esses pontos de interrogação de mim.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mudando as estações

Eu senti uma falta imensa de você hoje. O dia estava num tom cinza e eu não tive como não relembrar a sua calma. Calma que seria digna de um dia azulzinho, mas é a mesma calma que eu já agora não quero. Eu tive que sair e olhar as nuvens, como em um modo de implorar que você viesse até mim e me dissesse algo que faça você sair da rotina, algo que me ponha no meu lugar.

Dias azuis sempre nos deixaram calmos, na época em que eu mesma me permitia ser calma. E isso já fazem 10 meses! Sabe, meu estado de espírito é circular e tá na hora do lado chato aflorar. Deixo já em mim que as negras nuvens se apossem e, com o rosto para cima, sinto aquela gotículas quase imperceptíveis tocarem-me como uma forma de indagar se você irá se acostumar a nova estação que está florescendo.

Lembro de minhas crises outonais e de como você simplesmente se calava, olhava para baixo e me ignorava. Aquilo era um grande motivo para que eu fizesse manha, para ver se você olhava para mim. Mas nada. Acredito que se eu chorasse até todas as minhas lágrimas de sangue saírem, você não iria fazer nada.

Durante muito tempo, me perguntei o porquê do meu incômodo em relação a isso. Hoje, descobri: eu queria chamar atenção. Eu, uma pobre e tola criança, que não percebia que já tinha toda sua atenção durante todos os dias, queria sua atenção para minhas crises de inferioridade - e não somente sua negligência. Eu queria um você que se irritasse, assim como eu, mas queria um você que prestasse atenção em mim direto, assim como você faz.

Eu queria que você se reinventasse. Que você fosse o meu príncipe, que você fizesse o que eu quero, que você me colocasse no chão e me dissesse "garota, você vai fazer isso!", por mais que eu esperneasse. Eu queria alguém que botasse rédea em mim, por mais que eu tenha cara de durona e mandona. Eu queria. Ainda quero, as vezes, devo contar; mas já vejo que isso não é possível.

Vejo em você um alguém que, assim como nas novelas, consegue me repelir e me atrair em questão de segundos. Vejo em você a única solução pro meu mau humor, mesmo você o causando. Vejo você como você é. E gosto, gosto mesmo. E espero que não seja tarde para eu ver isso.

sábado, 21 de agosto de 2010

Merecia um tolice

-Não faz assim, não me olha com essa cara!
-Assim como?
-Esse olhar, essa carinha de tristeza.
-Só não quero que você vá..
-Mas eu preciso.
-Não, fica! Eu quero você aqui comigo..
-Você teve a vida toda pra ficar comigo e, logo na hora que eu tenho que ir embora, você quer que eu fique.
-Eu estava ocupada.
-Quando estamos ocupados com o mundo, não temos tempo para o amor
-Não diga isso..
-Pena que você não percebeu isso antes.
-Agora eu percebi.
-Como pode ter tanta certeza? Somos tão jovens..
-De idade, mas somos bem mais velhos de cabeça.
-Adultos também erram.
-Mas eu sei que eu sou toda sua.
-Eu também sou todo sempre seu!
-Então por que tem tanto medo que eu acabe com a gente?
-Tenho medo que você não saiba disso
-Bobagem.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Vácuo de cigarros

Perguntavam-na por que fumava. Sabia ela, com certeza, de todos os males e problemas de saúde que um cigarro pode trazer. Um não, muitos. Muitos não, milhares - ao fim de um ano inteiro. Mas ela simplesmente não sabia responder a essa comum pergunta. Dizia, até com uma certa comoção e cara de atriz de teatro sonhadora, que existem momentos que apenas pedem uma tragada. Não pela tragada em si ou pela satisfação química e mental, mas sim pela cena. Ela, na janela, enrolada num lençol, após fazer sexo pedia um cigarro no meio. Ela, de madrugada, sozinha, com um copo de café numa mão e uma caneta na outra, implorava por um cigarro. Ainda mais se ela estivesse de pernas cruzadas. Para ela, não era a dependência que a fazia fumar diariamente: era a estética e a morte deliciosa, lenta morte. Um cigarro, dizia, forma galáxias. Vários formam universos. O meu, concluía ela enfim.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Verdade verdadeira

A verdade dói e, muitas vezes, faço-me de rogada e não a digo - pode pegar mal. Mas tem vezes em que elas saem de outras formas em que pensamos "nossa, mas que bonito!" por mais que seja a nossa crua verdade. Penso em como seria um mundo em que ninguém se preocupasse com a verdade: teríamos nós algum chão onde possamos fincar estacas? Eu acredito na verdade! Eu gosto dela e da sinceridade que ela nos obriga a ter, juro. Só que nem sempre eu posso me aproveitar de ambas, prefiro ficar à sombra para me proteger dela. Não exatamente dela nem de mim, mas da reação que ela pode causar. Espero um dia poder gritar aos quatro ventos essa poética verdade. Espero um dia que ela dê frutos.

A verdade pode, diversas vezes, se chamar desejo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mais uma canção

Não era assim tão impossível de acontecer. O Catete do Leblon não é tão longe. Quem dirá a Lapa do Centro. Mas a vida deles era marcada de muitos desencontros. Logo essa vida nossa que tem como principal caracteristica os certos acasos, e tudo mais é descoincidência.
Era um romântico desvairado com uma menininha que se apaixonava a cada esquina. Se conheciam bem. Conseguiam conversar sobre aquelas coisas bobas que não conversamos com ninguém, exatamente por não termos com quem falar. Talvez por isso ele tenha se apaixonado. Talvez por isso ela o considere um grande e só amigo.

Tentavam, isso é verdade, se encontrar. Mas enquanto um queria quarta, o outro queria domingo. Então eles resolviam ir a Botafogo na sexta, tudo no meio. Mas desistiam por preguiça só de pensar que teria que discutir sobre o horário. Ela quase não se importava, tinha muitas outras pessoas para agradar e muitas outras pelas quais se apaixonar, e, o mais importante: sabia que ele estaria sempre lá. Porque ele, de certo, estaria a postos. A menina, por mais que avoadinha, não era burra, sabia do segredo que o garoto contava aos sete ventos. E abusava, todos víamos.

Mas ela era tão incerta, a menina. Trocava de jeito e humor como quem trocava de roupa e deixava sua sentimentalidade ser carregada nas costas de palavras bem organizadas na confusão de sua mente. Ele a apelidava de passarinho, por mais que estivesse mais pra fênix. E costumava retratar seus encantos e desamores em canções.

Começou com um versinho aqui, uma melodia acolá e conforme o sentimento crescia - sempre acompanhado da frustração - uma canção era construída. E mais uma. E mais uma. E mais aquela outra que tinha até nome de raio.

Era músico, o menino. Em algum momento de sanidade da menina, seus acordes, por mais que ele ajeitasse, estavam desafinando: era a ela mais próxima. Ele não entendia e fazia das suas músicas pequenas poesias. Mas o tolo menino não sabia que a magia de sua melodia estava naquilo que a vida mais sabia fazer: desencontrar. Mal sabia ele que a beleza vem daqueles desencontros com quem não é para nós - embora juremos de pés juntos que sim -, para dar lugar a sinfonia clara do encontro com quem é nosso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Realidade do sonho

Me pergunto até quando vou continuar tão vulnerável ao meu subconsciente. Às vezes, tenho a impressão de que sonhos me controlam, embora eu sempre tente fugir dele. O problema é que quando eu lembro de fugir, eu me dou conta de que acabei de lembrar e, lembrando, não consigo fugir; o que faz com que fugir seja uma forma mais branda de estar mais perto.

Sabe, esse assunto é bem confuso. E quando eu resolvo pensar nele, eu fico tão perdida como se em minha mente se formasse um enorme labirinto e eu ficasse perdida. Eu e meus sonhos. Nós dois lá juntinhos procurando a saída pro mundo real.

Acho que nós só achamos tal saída no nosso ultimo minuto de vida - o mundo real  não é esse aqui. Assim como dizem que quando encontramos o amor, o relacionamento acaba; quando a saída é achada, falecemos. Esta vida aqui agora é um sonho onde nem tudo é perfeito e nada é tão possível, por isso é um sonho. Nosso mundo, na verdade, é feito das mais estranhas vontade, pedidos e desejos, onde todos se encontram felizes - ou nem tanto, pode ser um pesadelo. Mas vivemos aqui justamente para merecermos aquele mundinho tudo-posso que, na verdade, temos.

A questão é que não estou tão preocupada assim com o depois, mas sim com o agora, seja agora sonho ou não. Sinto-me tão submetida a essas sensações que eu nem sei que tenho. É estranho. Vejo todos as noites desejos e informações - que passam por mim como num filme - que eu nunca nem pensei em ter. Mas ele pensou! Ele, sempre ele.

E tem também os desejos que eu escondo, ou que pelo menos tento sufocar. Eles sempre voltam à noite pra me atormentar - ou deliciar. São, então, reflexos do que eu quero acontecendo lá naquele mundinho onde tudo podemos, enquanto eu não posso aqui. Se for por isso, quero ir logo pra lá.

Muitas vezes, eu queria ter algo que me desse certeza de onde estou. Aonde estou pisando: é real ou não? Acontece de eu estar sonhando e realizar um desejo tão íntimo e proibido, que eu fico com medo de ser verdade e alguém descobrir. E tem momentos que seria melhor serem sonhos, para que pudessem sempre se repetir na minha mente.

Acredito que alguém já tenha tentado explicar esses esquisitos sonhos. Criaram até uma religião - o que eu não pretendo fazer - onde dizem que o agora é uma passagem pra aprendermos algo, como num sonho, e que nosso mundo real era o depois da nossa morte no sonho. Morrendo em sonho, acordamos em vida. E nossos sonhos dentro desse sonho que é nossa vida seriam uma informação ou lembrança da nossa vida real.

Desse modo, nosso subconsciente sabe de tudo, mas não nos conta. E por isso tanto me incomoda, me fazendo passar a vida a beira de imaginações por ele feitas sem que eu tenha certeza do que elas signifiquem. Sejam elas aquelas que temos à noite ou aquelas que conscientemente queremos e desejamos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Programando

Não precisava ser um almoço, bastava-me um sorvete. Nem sei se sorvete caberia àquela circunstância, acho que um café seria melhor. É, dizem que café é mais impactante, enquanto sorvete é de criança. Deve ser porque lembra às cafeterias de Paris, o que, por si só, já é atraente. Embora sorvete seja mais gostoso.

Café, então. Descafeinado e puro pra mim. O que a senhorita deseja? Ela não gosta de café, o que faço? Um chocolate quente, pronto. Sem açúcar e com bastante espuma do leite, isso. Eu só não sei o que falar num café, qual é o assunto mais condizente com o ambiente? Viagens, talvez. Mas eu nunca fui além de Campos. Amor, quem sabe. Poderíamos ficar horas filosofando sobre isso. Não gosto muito do assunto - nunca tive muito êxito nesse quesito - e tenho medo de que isso seja ser direto demais. Sabe, as pessoas se assustam com a verdade, temo que ela seja uma humana.

Então sentaríamos juntos numa cafeteria e falaríamos sobre amor. Tenho duvidas sobre minha preferência pelo local. Algo na praia, vendo o lindo visual carioca, ou Santa Teresa, o bairro mais charmoso da cidade? Seria ela assim como eu? Tenho receio de que tenha nervoso de areia ou então que ache Santa uma velharia cansativa. Mas digo que, se ela achar isso, eu a largo sem pensar no caso - se pensasse, trocaria meus valores pela beleza da moça. Mas vou arriscar, não vou abandonar a mulher da minha vida por uma menina doce e delicada qualquer. Se ela for pra mim, terá que entender meu amor por Teresa.

Mas e minha aparência? Será que apareço com ou sem barba? Como será que ela me prefere? Acho que o melhor a fazer é ir a caráter de um apaixonada por Teresa e amor: com barba. Quem sabe assim não saberei que ela, assim como eu, canta Los Hermanos no ultimo volume pela casa? Poderíamos, então, combinar de ir a Recife juntos para assistirmos ao show deles. Seria uma viagem e tanto!

Café, Santa, barba e amor. Um chocolate pra ela, claro. Acho que isso tudo aqui tá muito complicado e eu vou confundir - minha memória nunca foi lá muito boa. Quer saber, vou tomar um sorvete onde eu estiver, do jeito que eu estiver, falando sobre o que me vier a cabeça. Isso é o que eu vou fazer, assim que eu conhece-la.

domingo, 8 de agosto de 2010

Volta da volta

O mundo vasto é sem sentido. Eu ficaria a olhar e olhar um arbusto sem saber por que aquilo está lá, por que eu estou lá! E não é assim que eu quero ficar, Lulis. Sei que eu mandei você dar uma volta, mas não previa sua volta. É, pode parecer insano esse pedido, mas eu quero. Não quero mais choros, dramas, arrependimentos. Se tudo aqui clama pela sua presença, por que não voltar logo?! Os fios de cabelo pela casa ainda deixam seu cheiro. Sua presença na cozinha, as porpurinas da sua faixa de campeão, tudo! Ainda está tudo aqui como você deixou. Dói ver aquela sua boina que você só usava para pareces francês comigo. Machuca aquela sua guitarra que só faz som de dó, que dói. Dói não ter ninguém implicando. Dói não ter ninguém que te machuque. Dói o nada sem você. Eu quero seu colo, Lulis. E o nosso cachorro!

Talvez você diga que, se tivéssemos nos conhecidos em outro lugar, nos odiaríamos. E, mesmo que eu dissesse que nunca conseguiria te odiar, você iria dizer que "a Clara até hoje" acha isso devido as circunstâncias. Eu diria que somos mil e uma hipóteses e possibilidades do possível e impossível, e me perderia toda na conversa, enquanto você viria simplesmente perguntando "isso muda alguma coisa?" - e eu responderia. Eu e minha mania de achar respostas; você e sua mania de achar perguntas.

Dói só imaginar esse diálogo, volta logo pra ele acontecer, Luis! Aquele cachorro da vizinha ainda late junto com aquele bebê chorão que nos fez, durante muito tempo, permanecer acordados - fazendo algo muito melhor, diga-se de passagem. Aliás, posso ser muito sincera? Eu sinto falta de amor. De ter um amor ao meu lado e de fazer amor - amor já sinto. Quero ser em seus braços, quero sentir teu suor. Não penses que só quero isso, mas por que, nesse caso, isso não pode ser considerado sentimento e saudade? Ora bolas!

Volta, Lulis. Vem me dar calor, vem aquecer o outro lado da cama, vem dividir um yakisoba comigo, vem roubar meu edredon! Mas vem, Lu, que eu sussurro ao pé do seu ouvido exatamente aquilo que você quer ouvir: eu te amo demais.

Até sua volta.

PS: o baby Pugui está chegando e eu preciso arrumar a cama dele, se quiser falar comigo, liga pro celular

PS2: presente, nosso filhinho chegou

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Alguma força estranha

Tudo o que eu queria mesmo era que você estivesse ao meu lado este momento para eu poder te abraçar. Agora e em todos os momentos. Eu queria te trazer pra mim e poder passar noites a fio dormindo abraçada com você, ficar horas mexendo na sua orelha até você dormir. Queria muito que você ficasse aqui ao meu lado e eu pudesse contar todos os meus segredos no silêncio dos nossos olhares e te mostrar o meu sentimento ao pé do teu ouvido. Queria poder te abraçar até você não ter forças para se afastar de mim e que nossas mãos se moldassem ao corpos um do outro e ficássemos na nossa paz total.

Mas o mundo me castra. Eu passo horas e mais horas dos meus dias pensando que eles não eram seus, tentando enxergar algum que não fosse seu. Mal sabia eu que, deste modo, eu passaria o dia inteiro pertencendo a ti. Fujo, corro, pulo, viajo e maré da minha mente me traz de volta a você. Meu destino colou na sua pele, menino - ou será que foi o seu na minha? Tento não lembrar sempre desse seu jeito de explicar algo, ou do seu beicinho quando você finge estar triste, ou mesmo de que quando você segura na minha mão nada o meu medo de não ter caminho vai embora e fica você. Só você.

A minha vontade pelo novo tenta me levar sempre para longe. A tentação da novidade no mundo de quem está, teoricamente, estagnada é mais do que tentadora, como já diria o nome. Sabe, o esforço é grande. Mas, quando a vida me pede uma decisão, eu fico com você. Eu volto, bato na porta, peço um canto, desligo o celular, tiro os sapatos, deito na tua cama, te faço ficar perto de mim e digo que, de agora em diante, você não me escapa. O acaso que às vezes quer que eu fuja de ti, resolveu fazer de você um cais. E, sabe, é perigoso contrariar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Uma certa carta-comunicado

Caro espelho,

te olho no momento e não vejo uma imagem que me agrada tanto. Talvez por ser essa imagem refletida que tenha acabado comigo - ou venha acabando comigo aos poucos. Boa morte essa, quem sabe. Mas não foi desse aspecto despenteado, com olheiras e com cara ébria que vim falar. Mas calme, ainda temos tempo, ainda tenho linhas.

Não, eu não pretendo ser direta. Metáforas vagas e vãs já fazem parte de mim.Acho que é porque seja minha chance de rodopiar sem ficar tonta, somente deixando os outros tontos. Mas talvez valha a pena ir logo a essência deste comunicado-carta.

A questão é que quando olho para você, vejo olhos dotados de conhecimento e destreza, mas desorientados por tanta fragilidade. Não acho certo travar essa batalha na minha mente,  não é justo comigo mesma. Acredito na  verdade nua e crua, aquela se esconde entre o nosso cérebro e os mínimos milímetros entre ele e a realidade - as vezes tão desperdiçados.

Sinto sempre uma mão na minha testa protegendo-a enquanto um pente escorre meus embolados cabelos.Mãos macias, mas uma delicadeza triste, fria. É sempre um retrato que tenho do ontem e uma vaga lembrança do que está entre o hoje e o amanhã. É, sanidade que eu estou falando, muito bem.

Sinto falta dela. Dos momentos que tinha nos campos, correndo espantando passarinhos, meus momentos espantalho. Aqui o teto branco - que tinha como objetivo parecer estrelas - parece que cai toda noite sobre mim, mas se refaz antes do nascer do sol. Aqui só ponho o pé no chão quando preciso andar. Isso me dá medo. Consigo usar meus punhos o dia inteiro em historias mirabolantes e não consigo tocar meus pés no chão real! O famoso peso da minha índole de fantasia me puxou pra esse lado, bem que mamãe avisou. Mas eu não ouvi e ela me arrastou a vida toda, e exige uma recompensa que eu não sou capaz de dar.

Enxergo em tudo aquela sensibilidade que lhe disse, meu caro. Aonde enxergam jasmins murchos e chorosos, eu sinto aquele perfume lapidado com o tempo. Enquanto agem daquele jeito animal, tocando a pele sem sentir o que o calor tem a oferecer, eu desenho o que seus poros inalam com a ponta dos meus dedos.

Essa loucura me ataca forte, bem forte. E tem a intenção de me diferenciar dos demais. Enxerga-me diferente? Eu apenas vejo em ti aquele já destroçado de droga lícitas, como papel e sentimentos. E por isso tenho sangrado. Moldo em mim um parente do acaso, um acaso certo, digno de um homem sem desprezo. E crio da fantasia o meu outro mundo, que pode ser um apelido.

Mas não se preocupe, espelho, não é tão mal assim. Nada o é. Quando te olho assim, tão desgrenhado, não imaginas que tenha tudo que necessito para respirar: lápis na orelha, papel na mesa e mão na cabeça.

De alguém que só te verá quando precisar andar novamente.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Quero trocar também!

"São 7h. O despertador canta de galo e eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede.

Estou tão cansada, não queria ter que trabalhar hoje. Quero ficar em casa, cozinhando, ouvindo música, cantarolando, até.

Se tivesse filhos, gastaria a manhã brincando o com eles, se tivesse cachorro, passeando pelas redondezas. Aquário? Olhando os peixinhos nadarem. Espaço? Fazendo alongamento. Leite condensado? Brigadeiro...

Tudo menos sair da cama, engatar uma primeira e colocar o cérebro pra funcionar.

Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz idéia de reivindicar direitos à mulher e por que ela fez isso conosco, que nascemos depois dela.

Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós, elas passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando as crianças, freqüentando saraus, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.

Aí vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã, nem tão pouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconseqüentes com idéias mirabolantes sobre "vamos conquistar o nosso espaço".

Que espaço, minha filha? Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o

mundo ao seus pés.

Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, e se exibir para os amigos, que raio de direitos requerer?

Agora eles estão aí, todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como o diabo foge da cruz.

Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim. E nos lançando no calabouço da solteirice aguda.

Antigamente, os casamentos duravam para sempre, tripla jornada era coisa do Bernard do vôlei - e olhe lá, porque naquela época não existia Bernard do vôlei. Por quê, me digam por quê um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo?

Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso. Tava na cara que isso não ia dar certo.

Não agüento mais ser obrigada ao ritual diário de fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, e que sapatos, acessórios usar.

Que perfume combina com meu humor, nem de ter que sair correndo, ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada,

passar o dia ereta na frente do computador, com o telefone no ouvido, resolvendo problemas.

Somos fiscalizadas e cobradas por nós mesmas a estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, cheirosas, unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especificações (uffffffffff!!!!!!!) ...

Viramos super mulheres, continuamos a ganhar menos do que eles. Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço?

Chega, eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela (ai, meu Deus, já são 7:30h, tenho que levantar!), e tem mais, que chegue do trabalho, sente no meu sofá, coloque os pés pra cima e diga "meu bem, me traz uma dose de uísque, por favor?", descobri que nasci para servir.

Vocês pensam que eu tô ironizando?

Tô falando sério! Estou abdicando do meu posto de mulher moderna...

Troco pelo de Amélia, Alguém se habilita?"

 
Autoria desconhecida

terça-feira, 13 de julho de 2010

Divorciando-se

Não aguento mais, peço divórcio. Não sei como não deu certo, não sei o que eu fiz, devo ter feito alguma coisa errada. Não sei se adianta mais continuar insistindo nesse relacionamento já quebrado, acho que não. Mas ao mesmo tempo não quero me afastar. O que será que eu fiz?

Nada, eu não fiz nada! Foi ela, claro. É impossível conviver com aquele mau humor pela manhã e aquela mudança de humor durante o dia. Sem falar naquele tom sádico! Pra falar a verdade, não sei como aguentei tanto tempo! Foram 16 anos nesse relacionamento, e tudo jogado no lixo. Mas tá certo, não consigo pensar em conviver mais quase 20 anos com aquela ironia onipresente e grosseria gratuita. Quero distância!

Além de tudo, é infiel! Contava meias verdades e mentiras incertas com tanta naturalidade como se fosse para um poste. Era fútil. Monótona. Vivia com cara de sono. Preocupava-se absurdamente com o futuro (que futuro?).  Reclamava sempre que não tinha tempo para si mesma. Agora, terá todo tempo do mundo para si.

Alguém chama o advogado pra mim? Quero mandar ele arrumar a papelada toda logo. Ai, não, casei em comunhão de bens. Meu advogado que resolva! Não quero ver aquele ser nem pintado de prata, com cabelos de fios de ouro e esmeralda nos olhos. Por que fui inventar de casar com uma mulher? Sempre disse que duas não davam certo nunca.

Então é isso. Foi péssimo enquanto durou e eu espero que eu consiga logo essa separação. Pode ficar com meus vídeo games, meus gibis, minha senha da internet e minhas playboys. Vai logo que eu não me aguento mais, e eu volto pra mim de uma vez. Foi um desprazer ter me conhecido.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Grito

Meia-noite.
Um grito.
Medo.
Fantasmas?
Acho que não.
Fantasmas, só dentro de mim.



Ass.: Beiçola. (ou seja, Lucas)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

No quintal

O telefone do Dr Fernando, o psiquiatra, está bem ao lado do telefone. Logo ao lado o da polícia, nunca sei quando vou precisar de um deles. Nunca ninguém sabe. Não sei se verei corpos mutilados ou enforcados e os guardarei pra mim, ou brincarei com eles ou me desfarei dele sem ao menos lembrar onde os enterrei. Nunca sei se eles estarão no jardim do vizinho ou no meu, se serão parentes deles ou meus. Ou de nenhum de nós.

Podem ser vítimas de minha sanidade ou loucura total, não sei qual é mais perigosa exatamente. Se os olhos forem muito azuis, posso querê-los apenas para guarda-los num potinho e olhá-los quando sentir falta de um antigo amor. Posso querer também o dedo indicador para não ter o meu criticado quando apontar e rir de alguém na rua.

O mais sintuoso dos corpos pode até me servir para um jantar à dois, quando eu dispensar a prostituta. Seria até mais agradável, eu dispensaria toda a baboseira que ela falaria e o escarcéu que arrumaria para tê-la. E se eu desistisse dela na hora H? Existe esse risco - já disse que nunca se sabe -, é melhor mesmo um jantar a dois com o corpo, ou melhor, que não seja convidado especial, mas sim prato principal.

Comerei coração durante uma semana e passarei horas acariciando cabelos loiros despenteados no sofá já gasto, jogarei cartas e sempre ganharei. Brincará com meu cachorro e ele ficará totalmente satisfeito por ter alguém para brincar e por finalmente terem paciência para ele. Ficará tão feliz que até irá querer tomar banho.

Nos dias de sol, iremos nos trancafiar no armário com pijamas e ninguém irá reclamar comigo que quer o tão sonhado sol de verão. Eu irei me vestir com roupas de mulher e ficar totalmente feliz em ver rostos tristes, alegres e rudes - porém paralisados. Vestirei-os com roupas de época e tiraremos fotos de famílias antigas, como se tivéssemos todos o mesmo sangue, já que a essa altura do campeonato todos os sangues já terão se misturado mesmo. Colocarei suas mãos onde quiser e tiraremos a foto de primeira porque não haverá ninguém com sorriso cansado, riso preso ou denunciando infidelidade alheia.

Esses corpos do quintal nunca me assustam. O quintal da minha mente sempre me espanta. E o meu vizinho louco me entregaria de primeira. Por via das dúvidas, lá está o telefone do Dr Fernando.

sábado, 3 de julho de 2010

Período de adaptação

Demorou um certo tempo até eu me acostumar, mas hoje estou aqui. A ideia de ter alguém do meu lado todo o tempo, alguém que eu teria que prestar atenção e me doar mais do que me doo aos outros, de uma certa forma, me incomodava um pouco. Sempre acreditei na teoria de que eu me canso das pessoas facilmente. Não chutei essa teoria simplesmente, não pense isso, foi um longo período de estudo sobre a pessoa mais complicada pra mim: eu mesma.

Acredito que esse tempo de estudo tenha me deixado um pouco mais introspectiva. Ou quem sabe o período de dúvida, de adaptação. Não sei, mas sei que algo me tornou mais introspectiva. O estudo me cansava. Eu precisava ficar muito tempo pensando com meus próprios botões o que eu fazia e como eu agia, o que me fazia querer escrever. Acho que foi daí que desenvolvi minha paixão de verdade. Pelas letras e por ele.

Estava acostumada a ser sozinha, a não ter ninguém. Ou pelo menos a achar que não tinha ninguém, porque nem mesmo com a minha família eu pensava que podia contar. Mas algo me perturbava. No meu intimo, eu sabia que eu tinha, pelo menos, uma pessoa. E meu intimo mais intimo ainda sabia que aquela pessoa também me tinha, e por isso me deixava com o coração tão disparado quando eu me encontrava a sós com ela. Só fui tola em não perceber antes. Mas, não, não é uma pena: dizem que o que não damos tempo para acontecer, o destino se encarrega de tirar. Eu te obedeci, destino!

No comecinho, rejeitei. A ideia de ter aquela pessoa ao meu lado me assustava, talvez pela proximidade. Meu tolo lado psicológico! Escondi durante um tempo, fugi, me perguntei o porquê de me sentir tão balançada e mudada por ele, corri de um lado para o outro perguntando o que acontecia, e nada. Alguém em algum momento me fez parar e pensar. Parar e analisar. Parar e escrever. Parar e amar.

Depois me acostumei. Não a rotina ainda, claro, mas a ideia. Agradava-me realmente a ideia de ter alguém que gostasse de mim ao meu lado. A rotina era estranha, tudo que nos faz mudar os hábitos nos é estranho. Estranha nossa mania de nos acostumar! Eu sentia que não era só eu quem estranhava tudo, mas ele também. Mas eram jeitos diferentes.

Com o tempo, me acomodei. Admito que, naquela época, eu era acomodada: tinha alguém que me alguém que me amava ao meu lado, o que me transmitia segurança emocional e psicológica. Alem de ser amigo. Eu não, agia mais como amiga. Eu gostava, muito, mas não amava. Isso me levou a ruínas.

Ao longo desse período,  a culpa de enganar alguém que me amava ia me consumindo inteiramente. Ele me amava, eu não amava, mas dizia que amava; achava isso perverso. Isso foi se arrastando até o momento que eu explodi e quase o perdi. Incrível como nós, seres humanos pseudo-racionais, só nos damos conta de alguém sentimento quando prestes a perder a causa dele!

O resultado dessa explosão foi catastrófica: paixão. É, catastrofica. Não existe nada mais cruel que ela, capaz de te levar do céu ao inferno em minutos. Em muitas línguas, paixão está ligado ao sofrimento. Na nossa, está, embora ninguém lembre que seu real significado é sofrimento. Paixão de Cristo, sofrimento de Cristo! O alemão, língua tão estranha para nós, também tem seu significado e palavra de sentidos negativos, ligados, também, a sofrimento. Agora, comigo, não tinha mais volta.

E então que dessa brincadeira eu inventei um sentimento só meu e que me agradava muito: o estar apaixonada por quem se ama, mas saber que o amor vem antes. Porque, quase sempre, a paixão vem antes. Aquele desejo e obsessão pela pessoa que você cruza na esquina acaba se tornando, com a convivência, amor; ou some, se não houver convivência. Eu era apaixonada e amante, mas a paixão veio depois.

E lembrete: ela cresce. Ambos crescem.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Nossos planos meus

Olha, eu não conheço você há muito tempo, mas eu já gosto bastante de você.

Tá bom, a gente põe na nossa conta mais de dois anos, mas isso não é suficiente para dizermos que nos conhecemos. Estamos, os dois, em processo de constante mudança, eu posso te conhecer nesse segundo que escrevo, mas no próximo já não te conheço. Concorda comigo que seria tudo mais fácil se todos os casais pensassem em se redescobrir assim todos os dias?

Mas é nesse redescobrimento que está a magia da coisa. Tenho que estar te buscando a todo momento. Saber que livro está lendo; que comida está com mania de comer; sua cor preferida; se está gostando mais de listras ou bolinhas; dentre tantas normais coisas outras, que todos te perguntarão, como no que pensa antes de dormir e que pasta de dente está usando. Faria todas essas perguntas, fazendo você pensar sobre si mesmo.

E então minha mente começa a ligar manivelas sem que eu me dê conta. E se a gente fosse morar junto? Teríamos um carro e iríamos todos os dias juntos pro Fundão. Não, mais tarde, deixa essa época pra lá, vou recomeçar.

E se a gente fosse morar junto? Chegaríamos do trabalho e comentaríamos sobre nossos dias rapidamente. Você abriria a geladeira e fecharia-a forte reclamando que nunca temos comida em casa, enquanto eu reclamava de como você bateu a porta, dizendo "tem carro em casa não?". Então, teríamos uma briga colossal para descobrir o que iríamos comer, mas acabaríamos pedindo um yakisoba, como sempre. Enquanto esperamos, falaríamos mais do trabalho. Você comentaria sobre o que seus alunos falaram na aula de física e eu sobre os meus da aula de biologia. Compararíamos o comportamento deles, já que trabalharíamos juntos em alguma historia. Se não fosse sexta, corrigíramos provas, mas esses dias não importam. Quando cansarmos dos nossos pestinhas, planejaríamos onde faríamos nossa pós e moraríamos. Londres, você diz. Alemanha. Eu diria que Londres é mais caro e mais frio que a Alemanha, e você olharia pra minha cara com um "idiota" escrito no olhar. Você diria que Londres é mais embaixo que Berlim, eu teimaria que não e você pegaria um mapa. De certo você estaria certo. Eu iria olhar e dizer malcriada "mas é mais caro".

Eu iria sentar no sofá só pra não ter que continuar olhando pra você e fingiria prestar atenção em qualquer coisa que estivesse passando na televisão. Dali a uns dois minutos, eu iria até você, chegaria de mansinho e beijaria de levinho sua orelha, já que você estará sentado na cadeira. Você então viraria e me daria um beijo selando nossa paz, de um jeito que a discussão ficasse jogada num canto da cozinha, talvez dentro do armário. Sentaria no seu colo e olharíamos bem dentro dos olhos um do outro e riríamos do silencio, mesmo com a televisão ligada. Um riso sem porquê.

O interfone tocaria, era o yakisoba. Eu diria "vai lá hoje, que eu estou cansada, tem dinheiro na minha carteira". Você fecharia a cara, diria que tem dinheiro e que nas próximas duas vezes o trabalho sujo era meu; eu só concordaria. Comeríamos, como sempre, no mesmo pote e usando palitinho. você se sujaria inteiro e eu tentaria, com uma cara de reprovação, te limpar a cada vez que você levava a comida à boca. Eu fingiria até raiva quando você deixasse cair alguma cebola ou pimentão no tapete que sua mãe nos deu e diria "olha aí, filho da puta!", e você faria beicinho e aquela cara que eu não resisto, e eu correria até você para te abraçar rindo, deixando cair uma porção de macarrão. Você gritaria "olha aí, filho da puta!" riríamos absurdamente disso, já que nunca gostamos muito do tapete (do tapete, não de sua mãe), e como se isso fosse a graça e o fim do mundo.

Iríamos abraçados pro sofá e nos beijaríamos com fúria, que sabe-se lá da onde veio, mergulharíamos num frênesis total, que eu sentiria até uma duvida sua entre tirar minha camisa e continuar me beijando. O calor aumentaria até que cada poro e átomo pedisse você pra mim e os corpos gritariam tão ferozmente nessa insanidade que você é para mim, até que, semi nus, você viria em cima de mim e morderia do meu pescoço à minha orelha. Você certamente sentiria e riria por dentro de todos os meus pelos em pé e de minha pupila que certamente estaria dilatada, por mais que você não conseguisse ver (eu, pelo menos, estaria de olhos fechados). Eu iria usar de todo poder das minhas mão e unhas para arranhar e acabar com as suas costas, como uma espécie de poder. Isso tudo e não lembraríamos da televisão, da nossa comida esfriando, nem do quanto seria chato mandar lavar o tapete. O sofá nos aguentaria e moldaria-se a nossos corpos que por alguns instantes será um só e ficaria quieto, na dele. Ele sabia que não controlávamos nossos ímpetos.

Nus, andaríamos pela sala recolhendo peças de roupas jogadas e eu olharia assustada para as suas costas e exclamaria "nossa, eu que fiz isso?", e você mais uma vez reclamará que minha mão esquerda tem vida própria. Suspiraríamos alegremente dizendo "que bom que hoje é sexta", já que ainda não precisarias dar aulas aos sábados, mesmo reclamando sempre de grana e dizendo "tá foda, amor". Então você lembraria que tem aquele almoço que a sua mãe tanto planejara na casa dela e não podíamos faltar, e nos olharíamos com cara de saco cheio, já que detestamos obrigações familiares (obrigações familiares, e não sua mãe). Mas ainda teríamos o domingo para ficarmos juntos e, quem sabe, pedir uma pizza. Pedir algo às sexta, apesar da pouca grana, era quase obrigatório, salvo aquelas ocasiões que você chegaria mais cedo e cozinharia pra mim, fazendo um jantar romântico digno de filme.

E eu pensaria comigo como alguém como você pode gostar de alguém como eu, que sou chata e rabugenta e ainda não ter se cansado, desde os 15 anos de idade. E eu lembraria que essas coisas como o amor não tem explicação e agradeceria a sei lá que entidade superior pelo fato de ter você comigo, contando seu dia; gastando seu tempo comigo; querendo Londres enquanto eu quero Alemanha; me fazendo fingir prestar atenção na televisão quando discutimos; me fazendo derrubar o yakisoba no chão (olha aí, filho da puta!), quando corro pra te abraçar; quando você me faz acelerar no sofá.  Você devia ser canonizado.

Olha, eu acho que eu gosto mesmo de você. Mas ainda prefiro a Alemanha.