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domingo, 8 de agosto de 2010

Volta da volta

O mundo vasto é sem sentido. Eu ficaria a olhar e olhar um arbusto sem saber por que aquilo está lá, por que eu estou lá! E não é assim que eu quero ficar, Lulis. Sei que eu mandei você dar uma volta, mas não previa sua volta. É, pode parecer insano esse pedido, mas eu quero. Não quero mais choros, dramas, arrependimentos. Se tudo aqui clama pela sua presença, por que não voltar logo?! Os fios de cabelo pela casa ainda deixam seu cheiro. Sua presença na cozinha, as porpurinas da sua faixa de campeão, tudo! Ainda está tudo aqui como você deixou. Dói ver aquela sua boina que você só usava para pareces francês comigo. Machuca aquela sua guitarra que só faz som de dó, que dói. Dói não ter ninguém implicando. Dói não ter ninguém que te machuque. Dói o nada sem você. Eu quero seu colo, Lulis. E o nosso cachorro!

Talvez você diga que, se tivéssemos nos conhecidos em outro lugar, nos odiaríamos. E, mesmo que eu dissesse que nunca conseguiria te odiar, você iria dizer que "a Clara até hoje" acha isso devido as circunstâncias. Eu diria que somos mil e uma hipóteses e possibilidades do possível e impossível, e me perderia toda na conversa, enquanto você viria simplesmente perguntando "isso muda alguma coisa?" - e eu responderia. Eu e minha mania de achar respostas; você e sua mania de achar perguntas.

Dói só imaginar esse diálogo, volta logo pra ele acontecer, Luis! Aquele cachorro da vizinha ainda late junto com aquele bebê chorão que nos fez, durante muito tempo, permanecer acordados - fazendo algo muito melhor, diga-se de passagem. Aliás, posso ser muito sincera? Eu sinto falta de amor. De ter um amor ao meu lado e de fazer amor - amor já sinto. Quero ser em seus braços, quero sentir teu suor. Não penses que só quero isso, mas por que, nesse caso, isso não pode ser considerado sentimento e saudade? Ora bolas!

Volta, Lulis. Vem me dar calor, vem aquecer o outro lado da cama, vem dividir um yakisoba comigo, vem roubar meu edredon! Mas vem, Lu, que eu sussurro ao pé do seu ouvido exatamente aquilo que você quer ouvir: eu te amo demais.

Até sua volta.

PS: o baby Pugui está chegando e eu preciso arrumar a cama dele, se quiser falar comigo, liga pro celular

PS2: presente, nosso filhinho chegou

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cigarretes

-Clara!

Sem resposta. Ia calçando meu tênis, cada vez mais irritado.

-Clara!

Ainda nada. Estava afoito, precisava sair correndo - já estava pronto. Faz uns dias que a ouvi dizer, ao telefone, a uma amiga, que me amava. Desde então, não tive mais paz. Nunca imaginaria que uma mulher tão linda e estável como ela teria algum sentimento tão terno por mim. Ainda mais amor. Em minha mente, eu era somente mais um vagabundo a qual ela sustentava e fazia sexo todo dia. A ideia de que daqui a um mês ela me trocaria por qualquer outro amante de botequim não me assustava - me dava até certa paz. Sempre fui um grande cafajeste mesmo. Até quando a pobre menina estava a dormir - ela parecia até um urso hibernando -, eu ia lá e pegava algumas notas de sua carteira e transferia para meu bolso. Precisava acorda-la. Nem que a sacudisse por meia hora.

-Clara, Clara!!
-Que?! Ei, você está vestido.. o que você vai fazer?

Sua voz ainda meio sonada e meio confusa transmitia o sentimento que seus olhos de bichinhos amedrontado transmitiam.

-Hoje é sábado, lindo, e não são nem 8 horas da manhã. Você não vai encontrar ninguém vendendo maconha por aí a essa hora!

Agora, parecia que a cada letra havia uma súplica, um pedido sofrido.

-Eu vou.. eu vou..
-Não diz que vai embora! Eu te amo!

Aquelas palavras iam me mutilando.

-Não, eu vou só lá embaixo.. comprar cigarros.
-Mesmo?
-Mesmo.
-Ah, então tá..! Deite-se comigo depois de novo.

Ela deitara de novo em seu travesseiro com um tom de voz confortável de quem obtinha uma resposta convincente. Eu estava parado a porta, a essa hora.

-Clara!
-Que?
-Eu também te amo.
-Então ande logo, compre esse cigarros e volte para mim depressa.

Saí fechando a porta lentamente.
Eu não fumo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Traição

Eu te traí. É, isso mesmo. Ah, não faça essa cara de bobo, Luis, no fundo você sempre soube. Como eu queria que você reagisse? Bom, não sei, mas continuo achando que você sempre soube, mesmo que lá no fundo. Lembra que você sempre implicou com uns amigos certos e sempre teve um ciúme imenso? Então, era porque no fundo você sabia. Tá, também não vim pra dar uma de psicóloga. Ai, Luis, pára com esse drama. Eu sei, eu sei que é difícil, mas é difícil pra mim também, poxa! Não, foi só uma vez. Fiz porque ainda não me sentia em ti, nem você em mim. É, isso mesmo. Foi no começo, poxa, logo no primeiro dia, não dava tempo de associar tudo. Como tive coragem? Apenas tive.

Estou te contando, Lulis, porque não aguento mais. É, é uma coisa chamada culpa. Culpa, consciência pesada, voz interna, tem vários nomes. Só que ao longo desses 14 meses ela vem me tormentando e agora eu precisei contar. Não contei antes porque não tinha coragem, Luis! Acho que eu nunca devia ter ido tão longe dos meus limites e ter namorado, já que nem nas primeiras 24 horas consegui me conter. Não, Luis, não faz isso, por favor. Eu tô te contando agora, você não descobriu por outros. Eu te amo, Luis, eu te amo muito! Como você tá negando isso? Se eu não te amasse, não estaria agora te contando, homem!

Se eu não te visse em tudo que faço, se eu não tivesse você em tudo que vejo, se eu não te tivesse em mim, não existiria culpa e nós não estariamos aqui agora discutindo. Não, não quero dizer agora que a culpa de tudo é eu te amar. Quero dizer que ao longo desse ano todo o meu amor transformou esse ato errado em culpa e me atormentou. Não, Lulis, você sempre foi ótimo. Eu não acabei de dizer que foi no começo? Então.

Por favor, Lulis, não faz isso comigo. Eu era uma criança, eu sou uma criança! Uma criança metida que quis brincar longe do quintal e se machucou. Não, você não me machucou, eu me machuquei e te machuquei. E fiz isso sozinha! Só não fique longe, Luis, por favor. Eu preciso de ti. Se fico um dia longe de ti, passo a te lembrar em tudo que faço. Estou sendo sincera, por favor, não vá.

Não, Luis, na época não teve importância. Ah, fiz porque deu vontade, porque já tinha pensado nisso, porque ainda não tinha caído a ficha do nosso namoro. Não, não tinha pensado em te trair, tinha pensado em ficar com quem eu te traí, mas isso não importa. Mas não tinha mesmo! Se tivesse importância aquele homem pra mim, eu não estaria aqui agora com você, teria acabado àquela hora.

Se ainda te amo? É claro, que pergunta boba! Senão não estaria aqui contando. E você, ainda me ama? Mesmo depois disso tudo?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A vida e os passageiros

Outra vez no ônibus, vi-me vendo muitas pessoas importantes e conhecidas de minha vida. Mera impressão.Talvez isso ocorra no ônibus por ser um momento só meu e, assim, pensar em tudo, resultando, assim, na minha mania de materializar tudo que penso. Estou ali ao mesmo tempo tão minha e tão vulnerável aos outros e ao mundo. Como se não bastasse a mim mesma.

Ao entrar, todos os lugares estavam ocupados, exceto o do meio da última fileira. Sentei-me. Ao passar, os rostos tornavam-se cada vez mais conhecidos. Isso fez lembrar-me de personagens de minha infância.

Comecei, então a pensar em pessoas coadjuvantes em minha vida, que fizeram uma participação especial por um tempo, do tipo que você conhece e nunca mais vê. Os chamados substituintes e substituidores. A cada vez que pensava em uma pessoa que passara por minha vida, um outro alguém, coincidentemente, saía do ônibus. Nenhum outro novo passageiro ousava entrar, parecia que as portas estavam trancadas.

O ônibus ia se tornando cada vez mais vazio, morto, sem graça. E, junto ele, minha vida. O ônibus era como se fosse eu. Eu havia me fechado pro mundo, sem motivo aparente, e todos os que estavam perto de mim estavam indo. Tornava-me uma pessoa antiga. Estava ficando vazia: vazia de sentimentos e carente de carinhos decorrente da falta de pessoas presentes.

Foi quando, aí sim, lembrei dele, lembrei de Luis. Luis fora mais que um amor, uma meninice dos tempos de adolescente - fora um amigo, alguém muito próximo. E alguém que, mesmo após esses seis anos de distancia e falta de contato, o carinho prevaleceu. A partir de Luis fui lembrando de vários outros antigos amigos daqui, a quem eu guardo ainda, em algum canto, um carinho especial e uma vontade enorme de reencontrar.

Nesse momento, a porta do ônibus abre. Um homem, a quem eu não conheço, entra e senta-se num banco próximo. No ponto seguinte, umas pessoas entram, sentam-se com o homem e eles começam a conversar, tocar pandeiro e cantar. Não eram muitos, mas estavam alegres.

O ônibus ficara, enfim, não muito cheio, mas ficara vivo, alegre, com musica. Assim como minha vida era com meus amigos, os que quero reencontrar e tornar a conviver e viver.