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segunda-feira, 14 de junho de 2010

La cámara

Tudo que eu queria eram umas fotos e a nostalgia das feiras de rua. Ia andando pelas ruas do centro da cidade durante um sábado de manhã, observando a feira e seus presentes. Cenas interessantes, diria eu. Tirei algumas fotos, mas logo fui abandonada pela minha máquina, que havia ficado sem bateria.

Mais a frente, vi que estava tendo uma feirinha de antiguidades na Rua dos Inválidos e resolvi dar um pulinho lá. Pendurei a câmera no pescoço - ainda restava uma mísera esperança que ela retornasse a vida - e fui andando despreocupada. Os vinis e as vitrolas me chamavam a atenção por uma longa parte do percurso, sempre gostei de coisas antigas.

De repente, percebo que minha máquina caiu e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ouvi um creck. Minha única reação foi olhar para baixo, observar um par de pernas e, ainda olhando para baixo, exclamar um palavrão. Olho para cima e vejo um homem de aparência medíocre e de olhos vagos me olhando. Meus nervos ficaram a flor da pele.

Comecei a reclamar e chama-lo de tudo que era nome, enquanto ele me pediu um pouco de calma e me chamou para conversar. Calma? Mas é claro! Conversar. Discutiríamos o preço de uma câmera nova.

Sentamo-nos em um daqueles bares boêmios da região da Lapa e ele pediu um chá gelado. Chá gelado! Estávamos num bar, cara! Meu Deus, quem eu arrumei para quebrar minha câmera? A moça me perguntou se eu queria alguma coisa. Neguei, alegando que estava sem dinheiro. Ele, então, pediu um outro chá gelado para mim. Obrigada, moço, era o que eu queria.

Ajeitou os óculos, se acomodou na cadeira e me encarou, esperando que eu começasse a falar. Ai, que cara nerd. Então, reclamei dele, falei de sua distração e do chá gelado. Ele disse que não teria problemas em pagar a câmera, mas não entendeu o que o chá gelado tinha a ver com a máquina quebrada.

Estávamos num bar, caramba! Não era difícil de entender o que eu queria dizer. Ele somente olhou e disse "E..?". Aquilo já estava me tirando do sério.

Discutimos mais um pouco - câmeras, fotos, paisagens. Amor? Não, obrigada, não acredito. Ele riu e disse que eu era a primeira mulher que tinha essa opinião. Dei ombros e alguma resposta malcriada que o fez parar e refletir um pouca. Mudou o rumo. As coisas ficavam mais simples com ele. A conversa fluía, por mais estranho que aquilo pudesse parecer para mim. Ele era interessante, mas ainda bebia chá gelado.

Sempre gostei de pessoas com bom papo. Bom papo e inteligentes. Ele, não sei nem seu nome, tinha ambos e ainda estava numa feira de aniguidades. Feira de antiguidades! Não reconheço nada nesse mundo tão a minha cara quanto isso. Ligando os pontos, seria perfeito se não fosse o chá gelado. Ele, de fato, tinha tudo para me conquistar. Nem que fosse por um dia. Mas, sempre pensando que sou segura de mim, resolvi não cair em tentação-amém.

Conversa vai, conversa vem, num dado momento decidi que iria embora. Comecei a me levantar para ir dizendo que ele conquistara minha confiança, mas que ainda me devia uma câmera nova. Desolado, perguntou por que eu estava indo se ainda não tínhamos tomado outra. Não tínhamos nem tomado uma! Ele me convenceu e pediu duas cervejas. O papo dele era realmente muito bom. A cerveja então, nem falo.

Como a conversa ia fácil, nem me liguei no tempo. Pra falar a verdade, não tenho muita ideia de que horas o acidente aconteceu. 11h? 12h? Continuamos conversando e lá pelo começo da noite já não estávamos totalmente sóbrios. Na verdade, tudo rodava. Parecia que estava em uma valsa, onde a voz dele era a melodia bem marcada e ele me envolvia em seus braços fazendo-me dançar. Lembranças de uma bêbada.

 Lembro dele ter pagado a conta e me colocado no carro delicadamente, juntamente com uma musica. Não lembro muito bem. Só sei que no dia seguinte acordei ao seu lado. Não tinha dor de cabeça, nem enjoo. Tinha eu - incrivelmente de camisola -, o homem do chá gelado e uma máquina quebrada em um quarto claro. Mas eu não sei o que aconteceu.

Senhor! Eu só queria dele minha câmera de volta e, quem sabe, umas cervejas!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Uraniano

Olha, sinto dizer que, quando cheguei em Urano, morar aqui não era meu intuito. Não tem muito a minha cara: é azul demais, Terra demais. Sempre achei que fosse morar em algum planeta como Plutão ou Mercúrio, mas acabei achando que iria dormir demais no primeiro (sabe, é muito longe do Sol) e que iria morrer de calor no segundo. Fiquei aqui por acidente, foi bom.

Sinto lhe dizer, caro amigo, que não vou explicar-lhe a verdadeira razão que me trouxe até aqui - apenas saiba que fui expulso da Terra. Em meio a julgamentos e culpas tive como pena largar o Planeta Azul e me tacar nesse universo de Meu Deus. Saí tão às pressas que não tive tempo de dar tchau aos meus pais e nem de trazer malas. Uma saída apressada e atrasada, apenas.

De certo, tive muitos imprevistos. Sairia bem cedo de uma base de decolagem situada no alto da maior montanha da Sibéria - sabe, os russos mantêm muitos segredos: esse é um deles -, mas acabei perdendo o foguete. Acabei tendo como escolha esperar até a próxima decolagem, mas os russos são muito mal encarados. Por outro lado, com aqueles guardas me fitando o tempo todo, tive que arranjar outro jeito de ir embora.

Foi nessa hora que eu lembrei do Pequeno Príncipe. Nunca havia lido o livro - só eu no mundo não o li -, mas tinha uma amiga que contava-me a história todos os dias em todas as línguas possíveis. Bom, o fato é que iria usar da técnica do principezinho de se agarrar a um cometa e voar pela Via Láctea. Esperei chegar a noite, todos dormirem e peguei o primeiro cometa que pude. "Adeus, terráqueos hipócritas!", foi meu berro de despedida.

Horas depois lá estava eu voando por entre os planetas. Sem nem mesmo parar para ir ao banheiro. Ia vendo outros cometas passantes, outros viajantes que aparentavam não ter o mesmo destino que eu,  e eu naquele tédio mortal. Nem meu mp3 eu tinha para quebrar o galho!

Estava passando por Júpiter, quando percebi que meu cometa vinha dando defeito. Não sei como isso era possível, mas estava. Pelo menos uma teoria estava provada: não são só os homens que construem coisas com defeitos. Mas foi bem quando cheguei em Urano que aquela budega de poeira e pedrinhas se desfez por completo. Foi até muito proveitosa a quebra do cometa, senão a essa hora estaria em Alpha-Centauro. Ou em Andrômeda, quem sabe.

Enfim, Urano. Daqui mal consigo ver a Terra, Saturno e seus anéis me tapam a visão, mas os raios de Sol costumam me trazer notícias. Aqui é tudo tão azul, deve parecer a Terra, se visto de longe, isso me conforta, porque somente de longe se parecem. É um bom lugar para morar. Quer dizer, é bem pequeno, mas para quem mora sozinho como eu é um lugar e tanto! Minha solidão é curada pela ausência de vida. Em Urano, falta de vida significa, realmente, falta de pessoas; e não pessoas sem vida, como é na Terra. Assim não me sinto culpado. Ninguém me procura, eu não procuro ninguém.

Permaneço sentado no meu monte todos os dias. Não o apelidei de nada por enquanto - tudo ainda me lembra àquela antiga vida. No comecinho, costumava ficar horas e horas esperando que alguma poeirinha me trouxesse a noticia de que eu poderia voltar, mas descobri que a vida aqui é muito melhor. Tudo que eu planto, cresce. Meu planeta não tem palmeiras nem sabiá, mas dá pra ouvir o girar de um buraco negro que eu apelidei carinhosamente de "Engolidor de Sonhos". É útil quando tenho pesadelos com monstros tecnológicos da Terra.

Não há aqui nem verão nem inverno. Estou sempre na primavera ou outono, acho que nunca vou descobrir ao certo. Não preciso nunca me preocupar com tendências da moda. Não há repressões, nem religiões. Não há dores, muito menos holocausto. Não há aquela hipocrisia e falsidade. Não há humanos. Há apenas eu, que sou um. Quando se há somente um, não pode haver diferenças.

Sentado aos pés de minha própria montanha, vislumbro o azul escuro do céu. Cometas e estrelas cadentes, ferramentas vitais que os terráqueos perderam no vácuo espacial.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cigarretes

-Clara!

Sem resposta. Ia calçando meu tênis, cada vez mais irritado.

-Clara!

Ainda nada. Estava afoito, precisava sair correndo - já estava pronto. Faz uns dias que a ouvi dizer, ao telefone, a uma amiga, que me amava. Desde então, não tive mais paz. Nunca imaginaria que uma mulher tão linda e estável como ela teria algum sentimento tão terno por mim. Ainda mais amor. Em minha mente, eu era somente mais um vagabundo a qual ela sustentava e fazia sexo todo dia. A ideia de que daqui a um mês ela me trocaria por qualquer outro amante de botequim não me assustava - me dava até certa paz. Sempre fui um grande cafajeste mesmo. Até quando a pobre menina estava a dormir - ela parecia até um urso hibernando -, eu ia lá e pegava algumas notas de sua carteira e transferia para meu bolso. Precisava acorda-la. Nem que a sacudisse por meia hora.

-Clara, Clara!!
-Que?! Ei, você está vestido.. o que você vai fazer?

Sua voz ainda meio sonada e meio confusa transmitia o sentimento que seus olhos de bichinhos amedrontado transmitiam.

-Hoje é sábado, lindo, e não são nem 8 horas da manhã. Você não vai encontrar ninguém vendendo maconha por aí a essa hora!

Agora, parecia que a cada letra havia uma súplica, um pedido sofrido.

-Eu vou.. eu vou..
-Não diz que vai embora! Eu te amo!

Aquelas palavras iam me mutilando.

-Não, eu vou só lá embaixo.. comprar cigarros.
-Mesmo?
-Mesmo.
-Ah, então tá..! Deite-se comigo depois de novo.

Ela deitara de novo em seu travesseiro com um tom de voz confortável de quem obtinha uma resposta convincente. Eu estava parado a porta, a essa hora.

-Clara!
-Que?
-Eu também te amo.
-Então ande logo, compre esse cigarros e volte para mim depressa.

Saí fechando a porta lentamente.
Eu não fumo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ponta do abismo

Durante muito tempo eu tentei lutar contra. Talvez tua presença em meu mundo fizesse de ti algo tão comum a ponto de eu achar que um amor não pode ser encontrado assim, olhando pro lado. Ignorava as sensações que tinha perto de ti - talvez mais fortes do que as que hoje sinto. Sentia um tremor e uma paz que as pessoas facilmente catalogariam de amor, mas guardava só pra mim, por medo (ou vergonha?). Você me chamou tantas vezes para conhecer-te, tocar-te, amar-te, e eu, tola, recusei.

Até hoje acho incrível o modo que aguentaste tanto tempo a minha espera! Acredito que, no fundo, sabias o que eu realmente sentia, porque, admito, muitas vezes demonstrei isso. E você tantas vezes a falar comigo, insistir, pedir gritando no silêncio de seus olhos. Acredito que se você fosse mandar uma carta a mim naquela época ela seria algo como:


"Minha cara,

sabes que te amo (e sabes que sou direto). Que procuro sempre sua companhia, um toque, um olhar carinhoso, mas, por favor, não penses que sou um ursinho de pelúcia. Sempre quis conhecer-te melhor ou passar mais tempo com você de uma forma que eu sentisse que estivesse sendo recompensado pelo que estava lhe dando - mas isso nunca aconteceu. Infelizmente, ao seu lado, me sinto um substituidor. Assim como no filme "Tudo acontece em Elizabethtown": substituidor por só ser importante quando outros não estão ou, pior ainda, substituível por você me substituir facilmente. Pena que penses assim. Gastei tanto tempo cultivando esse amor por achar que éramos tão iguais, tão próximos e tão possíveis que esqueci que você não sou eu. E sendo você parte de mim, mesmo sem saber (agora já sabendo), foi/é/está sendo muito mais difícil te deixar de lado. Todo aquele tempo que desperdicei não faz mais tanto sentido para mim, mas acho que você ainda pode sair dessa dura carapaça e vir pra mim. Somos amigos, estamos juntos - comemos juntos, viajamos juntos, saímos juntos - o que mudaria tanto na sua vida? Digo que nada mais me prende nesse Rio de Janeiro e nesse Brasil a não ser você. E agora dou meu passo final em direção ao precipício: esta carta. Posso receber um sim, me tacar do penhasco em sua direção e ter a vida toda para aproveitar. Mas posso também receber um não, recuar um passo, mudar de vida. Mas mesmo assim terei a vida toda, só que desta vez sem você.

                                                                                                                                                   De quem te ama"


Talvez você esteja se perguntando porquê ainda falo disso. Talvez já tenha recuado o seu passo e tido a coragem de mudar sua vida - para melhor. Talvez já tenha até morrido e eu escreva isso em vão, para um você errado. E o pior: talvez ainda se pergunte porquê eu disse não, se até hoje penso nisso. A questão é que hoje eu realmente me pergunto como eu fui tão cega a ponto de negar teu pedido - não era nada de mais, era questão de conhecimento.

 Hoje, meu caro, quem mandaria essa carta acima seria eu. Mas não posso mais arriscar: estou no fim. Se me disseres um sim, me arrependerei de não ter falado isso antes. Se me disseres um não, absorverei esse peso e carregarei até depois do fim.

E então guardo esse papel no bolso como algo que nunca existiu, pensando que alguém depois receberá esta calça e o achará. Torcendo para que esse alguém seja você. Nem que seja um você errado.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Resolvi resolver

Hoje resolvi resolver. De uma vez por todas. A calma com que o futuro se arrastava engolia o presente e me fazia infeliz. Essa lentidão desperta em mim uma fome de velocidade, tempo voando e vento no cabelo que eu não posso ter. Não posso, mas quero. O tempo é meu, o presente é meu, o futuro é meu. Como poderei ter minhas coisas se não tenho nem o meu próprio tempo para mim mesma? Sei, sou jovem, ainda tenho tempo. Mas não quero o agora, ele me machuca. Quero o depois; quero estar junto; quero estar junto depois; quero, depois, estar junto. Mas depois de que? Não sei.

Parece que estava seguindo a mim mesma a dois, mas de repente um avião caiu sobre nossas cabeças e eu voltei para casa sozinha, zonza. Zonza por ter três toneladas em mim, zonza por ter me deixado cair, zonza por ter me perdido dele. E perdida dele, estou perdida de mim. O ônibus que faz insistentemente todos os dias seu percurso, hoje se perdeu, mudou o caminho. E junto com ele, eu.

Onde estava eu com a cabeça quando resolvi pensar em viver o agora? Se o meu passado é lindo e meu futuro me agrada, essa lentidão do presente me fere. O presente é pesado. É um presente de amigo urso, um presente de Tróia, um cavalo de pau. A surpresa não é boa, não tem graça, não gosto de palhaços. Que graça há em se perder, em viver nesse tempo arrastado, em estar atordoado? E fingir, mesmo triste, que nada aconteceu, forçando um sorriso? Não, não há, não quero isso pra mim.

Hoje resolvi resolver. Resolvi resolver que dentro de mim há uma pessoa não com sede de futuro ou saudades do passado, há uma pessoa perdida. Uma pessoa que só se acha nele, essa foi minha decisão. Mas como posso ter conseguido decidir isso e ter me afastado? O presente demora e não me agrada mas o futuro está aí. E o futuro é nosso. Enquanto isso, vai passando, que depois eu me acho nele de novo, quando estiver livre das garras do presente arrastado e arrastador. Mas e o amor? O amor cresce.

terça-feira, 2 de março de 2010

Confusão

Àquela altura ela já se arrastava pelo chão. Havia uma dor profunda que lhe sufocava e não a deixava respirar, juntamente com uma outra dor, agora mais forte, na altura das costelas, como se tivesse recebido um chute. Suas lágrimas jorravam de tal forma que Maria acreditava que não iam mais parar de escorrer. Com o passar do tempo, ela começava a se questionar se não ia mais sair daquele penoso estado. Ao todo, estava no chão há uns 3 minutos, mas achava que já tinha sido mais de hora. Então ela resolveu limpar-se e levantar-se.

Maria nunca imaginou que aquele homem a pudesse fazer rir tanto assim. Ela estava, realmente, ficando apaixonada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cumulus nimbus

Hoje o dia amanheceu nublado. Umas pessoas reclamaram da chuva fina, outras agradeceram pela folga do sol e algumas sequer pestanejaram. As que reclaram até entendo, afinal é verão no Rio de Janeiro. Mas eu gosto de dias nublados. Podemos ser nós mesmos, sem a exigência de um dia feliz na praia que o sol e o céu azul nos pedem. Temos a chance de ficarmos tristes sem alguém perguntar o porquê, o tempo é uma forma de desculpa. E eu gosto do frio. Podemos ficar juntos, agarradinhos, embaixo do edredon tomando chocolate quente. Podemos ser preguiçosos. E por mais que digam que o frio deixa tudo triste, eu posso ser feliz nele e abrir meu própio céu azul.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Yesterday came suddenly

Às vezes, acho que todos se sentem assim: nostálgicos. Uma vez, em casa, estava largada no sofá observando as voltas do ventilador. É impressionante as voltas que o ventilador dá - rápidas e voltando sempre ao mesmo lugar. Assemelha-se, incrivelmente, a vida. Não é à toa que o ditado diz que o mundo dá voltas, e que, além disso, ele é pequeno, por isso acaba tudo voltando ao mesmo lugar. E são essas voltas que culminam o nosso momento nostalgia.

Então, depois de chegada a essa conclusão, em mais uns de meus devaneios, resolvi levantar, esquecer isso e fechar a janela. No vento frio e seco estava uma menina na rua a brincar de pisar nas vagens retorcidas e secas das árvores. Seu pai a olhava de mãos dadas e ria. Por um momento, vi-me nessa criança.

Minha avó, meu cachorro, eternos companheiros meus dessa brincadeira. Meu antigo uniforme. A mesma casa, mas tão diferente. A mesma rua, já não a mesma. As mesmas pessoas, já tão mudadas. Um tempo sem preocupações por minha parte, onde todos eram iguais. Impressionante esse pensamento infantil: tão teoricamente correto e diariamente incorreto, mera utopia.

O impacto que tal visão teve sobre mim, me foi curioso. Um ato tão normal, tão sem importância, proporcionara sentimentos assim. Era só uma brincadeira e mais nada. Por fim, admito que não era só isso. Era uma vida. Era uma avó, um cachorro. Era a infância.

Acho que ainda não cresci. Na verdade, cresci, nota-se, mas não o necessário. Não estava preparada pra viver na mesma casa ainda, pra ver essa cena, pra estar tão longe e próxima do meu passado. Era algo que a rotina tinha banalizado, mas que essa criança tornou tão estranhamente estranho. Nostálgico, essa é a palavra certa.

E, depois disso, ao ir andando até a cozinha buscar meu copo d’água, tudo foi passando a ser nostálgico. Admito ser nostálgica, e sou até com um tempo que não vivi. No momento, sentada na cadeira, sob o móvel da cozinha, com meu copo na mão, revivi uns momentos naquela casa. Vi uma menina pequena no seu triciclo de plástico indo e voltando do fim do corredor enquanto mastigava sua comida. Vi toda uma família na sala vendo a menininha, o xodó da casa, cantando e falando errado, fazendo todos rirem. Vi, então, sem a menininha, três meninas: uma de 11, uma de 12 e outra de 3 na sala comendo ao som de música dos anos 80. E vi a mesma família, também sem a menininha, comemorando a vitória da copa de 1994 sobre a Itália enquanto o cachorro rasgava as almofadas. E vi, por último, a menina na rua pisando nas tais vagens.

Imagens da minha vida, minha própria nostalgia. Imagens imaginadas de uma realidade descrita a mim, minha própria nostalgia não vivida e não por isso sem importância para mim. Boas lembranças de outros tempos, nem melhores nem piores, mas seus e com muita importância.

Mas, ao pensar isso, vejo que ainda não cresci, continuo brincando a brincadeira da vida. Vide que ainda hoje, andando pelas tardes de outono, vou pisando nas vagens em frente ao meu prédio.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A vida e os passageiros

Outra vez no ônibus, vi-me vendo muitas pessoas importantes e conhecidas de minha vida. Mera impressão.Talvez isso ocorra no ônibus por ser um momento só meu e, assim, pensar em tudo, resultando, assim, na minha mania de materializar tudo que penso. Estou ali ao mesmo tempo tão minha e tão vulnerável aos outros e ao mundo. Como se não bastasse a mim mesma.

Ao entrar, todos os lugares estavam ocupados, exceto o do meio da última fileira. Sentei-me. Ao passar, os rostos tornavam-se cada vez mais conhecidos. Isso fez lembrar-me de personagens de minha infância.

Comecei, então a pensar em pessoas coadjuvantes em minha vida, que fizeram uma participação especial por um tempo, do tipo que você conhece e nunca mais vê. Os chamados substituintes e substituidores. A cada vez que pensava em uma pessoa que passara por minha vida, um outro alguém, coincidentemente, saía do ônibus. Nenhum outro novo passageiro ousava entrar, parecia que as portas estavam trancadas.

O ônibus ia se tornando cada vez mais vazio, morto, sem graça. E, junto ele, minha vida. O ônibus era como se fosse eu. Eu havia me fechado pro mundo, sem motivo aparente, e todos os que estavam perto de mim estavam indo. Tornava-me uma pessoa antiga. Estava ficando vazia: vazia de sentimentos e carente de carinhos decorrente da falta de pessoas presentes.

Foi quando, aí sim, lembrei dele, lembrei de Luis. Luis fora mais que um amor, uma meninice dos tempos de adolescente - fora um amigo, alguém muito próximo. E alguém que, mesmo após esses seis anos de distancia e falta de contato, o carinho prevaleceu. A partir de Luis fui lembrando de vários outros antigos amigos daqui, a quem eu guardo ainda, em algum canto, um carinho especial e uma vontade enorme de reencontrar.

Nesse momento, a porta do ônibus abre. Um homem, a quem eu não conheço, entra e senta-se num banco próximo. No ponto seguinte, umas pessoas entram, sentam-se com o homem e eles começam a conversar, tocar pandeiro e cantar. Não eram muitos, mas estavam alegres.

O ônibus ficara, enfim, não muito cheio, mas ficara vivo, alegre, com musica. Assim como minha vida era com meus amigos, os que quero reencontrar e tornar a conviver e viver.